Início da pedalada: 31/12/2004 –
Final: 19/01/2005 Participantes
Introdução O relato que se segue refere-se
a um período de quase um mês em que seis brasileiros desconhecidos
rumaram para uma viagem ao Chile. A viagem foi feita de bicicleta
pela Carretera Austral, na patagônia chilena, mas também por outros
meios de transportes e dentro de cada um. Mais do que uma viagem ou
uma aventura no sentido físico, é a experiência vivida em terras
estrangeiras, nas terras inóspitas e belas da patagônia e nos
terrenos delicados e sensíveis das relações humanas, o que fica
registrado de forma mais intensa na memória dos que participaram da
aventura. Se há uma peculiaridade nessa aventura que merece ser
destacada é o fato dela ter sido realizada por um grupo de homens
maduros e diferentes, que souberam respeitar suas diferenças em nome
de um objetivo em comum. Para compreender o “espírito” dessa viagem
é importante conhecer a história de nosso grupo e de como ele foi
constituído. Boa navegação. Os autores: Almiro, Fernando, Gustavo, Nilson,
Ricardo e Valdo Entre o sonho e a realização da viagem
passaram-se vários meses. Os contatos foram feitos pela Internet
através de listas de discussão sobre cicloturismo. Das nove pessoas
interessadas, seis realizaram a viagem. Éramos quase todos
desconhecidos. Criamos uma lista de discussão (http://br.groups.yahoo.com/group/Carretera_Austral)
onde iniciamos uma intensa preparação com intercâmbios de
experiências, telefonemas, e duas visitas. Estávamos muito entusiasmados em participar
desta grande aventura. Era uma aventura ao desconhecido. Quatro de
nós, Almiro, Fernando, Nilson e Ricardo iam participar pela primeira
vez de uma viagem de cicloturismo. O Gustavo já tinha uma pequena
experiência no Vale do Jequitinhonha MG. O mais experiente era o
Valdo que já tinha percorrido o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, além de
ter pedalado por todo o Uruguai. O Almiro, o “abuelito” do grupo, nem sequer
tinha uma bicicleta. Quando decidiu participar da expedição, no mês
de julho, começou um preparo intensivo numa academia. Nos primeiros
três meses usou a bicicleta da filha para treinar. Para nossa
surpresa, teve um desempenho extraordinário durante a expedição. A sugestão era que cada um fizesse uma
viagem de, pelo menos, 100 km num dia, com os alforjes carregados
para sentir a dificuldade. Ninguém foi capaz de realizar a sugestão.
Todos deixaram para se preparar durante a viagem. Como na primeira
semana as etapas foram curtas, não houve problemas. No quarto dia de
viagem, fizemos 66 km e nos últimos 20 km enfrentamos chuva, vento,
frio e subidas fortes. O Gustavo arrastou-se durante os últimos
quilômetros mas mesmo assim chegou sem problemas nas Termas del
Amarillo para repor as energias. Diz um provérbio popular que “O melhor da
festa é esperar por ela”, só que desta vez o provérbio não
funcionou. O melhor mesmo foi participar desta incrível aventura,
com um grupo de pessoas desconhecidas, com idade média de 43 anos,
onde se criou uma harmonia incrível. A coisa mais linda de toda a
expedição foi a vivência e a convivência do grupo. Esta foi a
verdadeira moldura que embelezou as magníficas paisagens que a
natureza nos presenteou durante toda a viagem. 27/12/2004 Curitiba - PR. O Valdo e o Nilson tinham
combinado receber o Gustavo na rodoviária para fazer um passeio
ciclístico de 40 km pelas ciclovias da cidade, enquanto esperavam
pelo ônibus da Pluma que só deveria chegar à noite. Às 9:30h toca o
telefone na casa do Valdo. Era o Nilson comunicando que tinha havido
um acidente na Regis Bittencourt e que a estrada estava interditada.
Os dois decidiram ir até a rodoviária, onde chegaram às 11 horas.
Foram informados de que o ônibus só chegaria depois do meio dia.
Resolveram esperar. Almoçaram e às 13:50 receberam a informação de
que tinham acabado de liberar a estrada e que a previsão de chegada
era para depois das 17 horas. O Gustavo tinha amanhecido o dia com uma
paralisação na Régis Bittencourt, que durou 8 horas, entre 6h e 14h.
Ficou ansioso ante a possibilidade de perder o ônibus da Pluma. Os
dois voltaram para casa a fim de fazer os últimos preparativos. A
bicicleta do Valdo ficou muito pesada, pois além dos 20 quilos de
bagagem teve que acrescentar mais 8 quilos de bananas passa e barras
de cereais. O Nilson chegou às 17:45h. Meia hora mais tarde, depois
de pousar para a foto da partida, iniciaram a pedalada até a
rodoviária onde encontraram o Fernando que já tinha chegado de
Joinville. O Gustavo, que deveria ter chegado em
Curitiba às 10:30h, só apareceu às 19h e o passeio turístico
combinado com Valdo e Nilson não pôde ser realizado. Encontrou-se
com o Fernando, Valdo e Nilson, que não o reconhecem de imediato.
Juntou a bagagem à deles, formando um imenso volume no meio do
caminho de vários passantes. Esperaram ansiosos pela chegada do
ônibus da Pluma às 20, mas este também se atrasou. Às 22, já dentro
do ônibus, o Gustavo, o Fernando e o Nilson conhecem o Almiro, o
quinto integrante do grupo que vinha de Águas de Prata SP. Saímos de Curitiba à 22:32h. Recebemos uma
notícia nada boa. Devido ao atraso, só iríamos chegar em Santiago
depois das 21 horas do dia 29. A nossa viagem para Puerto Montt
estava marcada para 21:30h do mesmo dia. Era preciso armar uma
estratégia para não perder a passagem de Santiago a Puerto Montt. Na
primeira parada, em Sombrio, o Almiro telefonou para o genro pedindo
que procurasse o telefone do Ricardo que ia viajar de avião no dia
29, para que ele, ao chegar em Santiago, resolvesse o problema da
passagem. 29/12/2004 A viagem foi tranqüila, apesar da ansiedade
para saber se o Ricardo tinha recebido o recado que passamos através
do genro do Almiro. Atravessamos os monótonos pampas Argentinos
e chegamos à cordilheira dos Andes e Aduana Chilena. Nesse dia
começou a haver interação maior entre todos os passageiros do
ônibus. O Gustavo conheceu um chileno que já pedalou na Carreteira
Austral e é esportista, profissional de Downhill; Ana Luiza, que é
uma valente mochileira de Uberlândia e um brasileiro de Campinas que
já conhecia uma parte do sul do Chile e também era cicloturista. No
ônibus ia se formando um clima muito gostoso, com direito a música.
Na medida em que as pessoas se familiarizavam com os objetivos das
viagens uns dos outros, começavam a dar sugestões e a conversar de
modo que todo o ônibus transformara-se em um grande grupo de amigos.
Ao chegar na Alfândega chilena fizemos
todos os trâmites legais para dar a entrada no país que
desbravaríamos pelos próximos 25 dias. O Gustavo declarou na
inspeção sanitária que portava alimentos de origem animal e teve que
abrir sua mala. Satisfeito, o funcionário chileno inspecionou com
cuidado um queijo provolone, e o deixou passar, e um salaminho “tipo
milano”, que foi confiscado, envenenado e descartado(*).
Ainda na Alfândega, o Valdo telefonou para os Salesianos, em
Santiago, e recebeu duas boas notícias. A primeira foi que o Ricardo
tinha acabado de sair dos Salesianos e ia marcar a passagem para o
dia 30 às 18 horas. A segunda foi que os Salesianos tinham arrumado
alojamento par nós no colégio. Foi um grande alívio saber que tudo
estava resolvido. Chegamos na rodoviária de Santiago às
20:45h. O Ricardo, esboçando um largo sorriso, veio ao nosso
encontro com as passagens na mão. O horário estava em aberto.
Tínhamos 35 minutos para descarregar as bagagens, marcar as
passagens para 21:20h, carregar as bagagens da rodoviária norte para
a rodoviária sul. A distância não era grande, uns 200 metros, mas
tínhamos muitos volumes. Iniciamos então a operação formiguinha.
Enquanto um ficava cuidando das bagagens os outros transportavam os
volumes. A primeira etapa foi até o guichê da Tur-Bus. A segunda foi
atravessar a rua até a outra rodoviária. O pessoal estava tão
animado que nem sentiu o cansaço. Na verdade até esquecemos que
estávamos com fome. A última refeição tinha sido no ônibus às
15:30h, que serviu de merenda, almoço e jantar. O Ricardo já tinha
conseguido pousada para nós nos Salesianos, mas preferimos ganhar um
dia.
Para o
Gustavo seria a quarta noite consecutiva no ônibus. O Ricardo estava
descansado, pois tinha chegado de avião. Para os demais, era a
terceira noite no ônibus. Detalhe: Ninguém tomou banho durante a
viagem!
(*) Nota do Gustavo:
Há um rigoroso controle de entrada de produtos in natura
para o Chile. No caso do salaminho, este possuía o carimbo
do órgão de vigilância sanitária brasileiro e estava dentro
de seu prazo de validade, o que me deixou um pouco
inconformado com seu confisco. Em todo caso, não me sentia
em condições de questionar a atitude do funcionário chileno. Chegamos em Puerto Montt às 11 horas.
Colocamos as seis malas-bike em cima da calçada e, sob o olhar dos
curiosos, começamos a montar as bicicletas. O primeiro a terminar de
preparar a bicicleta foi o Nilson. A cena era no mínimo curiosa. Os
que já tinham ido pedalando para a rodoviária, como o Valdo e o
Nilson, não tiveram problemas. O Almiro tinha levado tanta coisa que
dava a impressão que levava toda a mudança. O Gustavo foi montar os
alforjes e percebeu que o bagageiro estava quebrado e por isso não
pôde levar a sacola com a barraca e os demais apetrechos.
- Por que é que vocês vão ao Colégio
Salesiano? - Porque eu sou Salesiano, respondi. - Eu tenho dois filhos que estudam lá. Quer
que eu chame o meu filho para mostrar o caminho para vocês? - Sim, se for possível. O Sr. Franco telefonou ao filho e dentro de
alguns minutos apareceu com uma bicicleta para nos acompanhar até o
Colégio. Guardou a caixa do Almiro e a bagagem do Gustavo no
escritório dele que fica na rodoviária e saímos em fila indiana.
Para muitos era a primeira experiência de pedal coma bicicleta
carregada. Pedalamos uma centena de metros e começamos a subir.
Seguimos por uma rua muito movimentada e íamos pela “orilla
esquierda”. Os carros passavam por nós tirando fininho. Depois de
pedalar 3.200 metros chegamos ao Colégio. Nesse dia ocupamos nossa mansão na “Alta
Puerto Montt”, uma gigantesca casa de retiros na qual cada um de nós
tinha seu quarto individual e muito espaço para arrumar as
bicicletas, tomar banho e cozinhar. O dia foi de preparativos, desde
a compra de equipamentos que não vieram do Brasil, o conserto do
bagageiro traseiro do Gustavo, até uma alimentação reforçada, uma
higiene cuidadosa e tempo para colocar todos os itens em ordem na
bicicleta. O primeiro a tomar banho frio foi o Nilson.
A água quente só foi ligada às 15 h. Às 14:30 o Valdo apresentou-se
ao diretor, Pe. Natale, que o recebeu muito bem. O Gustavo e o Almiro foram até a rodoviária
buscar o resto da bagagem e aproveitaram para fazer o câmbio dos
dólares. Trocamos USD 1.650,00 em pesos chilenos ao câmbio de CLP$
540 cada dólar. Cada um trocou 300, menos o Fernando, que trocou 150
porque ia fazer só uma parte da viagem.
O Fernando logo nos apresentou seus
talentos culinários nos brindando com um Sashimi muito bem feito e
uma aula sobre vinhos chilenos. Nilson também não desapontou
servindo um arroz perfeito. Era um prenúncio de que fome não
passaríamos e, emagrecer, só se fizéssemos o propósito. Ao final de
quatro dias juntos já sedimentávamos nossas impressões uns sobre os
outros, e nos aproximávamos muito, não só por ocupar a mesma casa,
mas também por construirmos nesse dia o caixa comum e, cada vez mais
estarmos com nossos tempos e espaços vinculados uns aos outros. Depois do jantar repartimos a comida em 6
partes iguais para dividir o peso. O Valdo ficou sendo o caixa
durante toda da viagem. Cada um recebeu CLP$ 5.000 para as pequenas
despesas pessoais e mais CLP$ 150.000 para guardar. O Valdo ficou
com o restante. A partir daquele momento só existia o caixa único.
Formamos uma família de cicloturistas. O Almiro estava um pouco cansado e depois
de receber a quota de comida, foi dormir. Os demais puseram-se a
preparar os alforjes e só foram dormir depois das duas da madrugada. MXS = 54,5 km/h Às sete horas em ponto o Ricardo passou
batendo nas portas dos quartos. Era hora de levantar para iniciar a
nossa grande aventura. A saída estava marcada para as oito horas.
Como o Almiro tinha levantado às seis horas, já estava com a
bicicleta pronta para a viagem. Tomamos café e às 8:20h fomos até a
residência dos Salesianos entregar a chave e agradecer pela
acolhida. Deixamos as mala-bikes e os supérfluos na garagem, para
aliviar o peso. Depois de pousar para a foto oficial da Expedição
Carretera Austral, iniciamos a nossa aventura. Para o Valdo era mais uma viagem de
cicloturismo, mas para o restante do grupo era a primeira. Todos
estavam bastante ansiosos. Era o início de algo desconhecido. Muitas
dificuldades teriam de ser vencidas durante a viagem. Era impossível
prevê-las. Pedalamos três quilômetros e começou a chover. Colocamos
os abrigos de chuva. Depois de alguns minutos a chuva parou. O
início da Carretera Austral é asfaltado. Segundo o nosso mapa,
seriam 45 km de asfalto, mas para nossa surpresa ao chegarmos no Km
23 acabou o asfalto. Entramos no clima da viagem que havíamos
idealizado. Pesadas subidas começaram a aparecer enquanto nós
contornávamos a baía. No Km 48 chegamos ao Ferry Boat para fazer a
travessia da Caleta La Arena até a Caleta Puelche. O termo “Caleta” é muito usado no Chile e
corresponde mais ou menos à nossa Colônia de Pescadores.
A travessia foi rápida, apenas 30 minutos e
foi grátis para nós e para as bicicletas. Decidimos acampar no primeiro camping que
encontrássemos. Pedalamos alguns quilômetros e encontramos um
camping bastante simples na beira da praia. Uma senhora correu para
nos atender. Fizemos sinal com os dedos perguntando o preço. CLP$
5.000 por quadrado, disse ela. Resolvemos seguir adiante. Era o dia
31 de dezembro e decidimos pernoitar num residencial para comemorar
a passagem de ano. Pedalamos o primeiro dia por paisagens
magníficas. O Gustavo e o Ricardo eram os mais pesados e sofriam
mais na estrada. O Gustavo era o único do grupo que não tinha
suspensão dianteira. Percebeu logo que este equipamento fazia falta
no tipo de terreno que estávamos pedalando(*). Às 16 horas chegamos em Contao. Apesar de
ser o primeiro dia, alguns queriam continuar mais um pouco.
Hospedamo-nos no Residencial Reloncavi, cuja proprietária chamava-se
Luz Marina, por CLP$ 5.000 por pessoa, com direito a usar a cozinha,
TV a cabo e muito conforto A proprietária parecia incomodada de
ter-nos em sua casa, mas enfim, estávamos lá. Pouco tempo depois de
instalados, muitos dos que queriam seguir viagem já estavam
estirados em seus leitos, com cara de acabados. No calor e
empolgação do primeiro dia alguns não perceberam o quanto já estavam
cansados. Um sono “inexplicável” abateu-se sobre o Ricardo e o Almiro,
e eles dormiram tarde à dentro.
Fomos informados pelos Carabineros que o
“transbordador” de
O Gustavo aproveitou para escrever as
primeiras impressões sobre o grupo. Valdo: sem dúvida o nosso líder. Assume
responsabilidade pelas decisões e tenta coordenar as ações do grupo. Almiro: É o mais fechado, mas também o mais
ativo e cheio de iniciativa. Nilson: Nosso pedal mais forte. Animado,
espontâneo e cheio de iniciativa, transmite confiança ao grupo com
seu conhecimento de bicicletas. Ricardo: Educado e muito solícito,é o “bom
moço” da trupe. Fernando: muito observador, passa a
impressão de um homem sofisticado. ------------------------------------------
(*) Nota do Gustavo:
mais a diante vim a descobrir que em outros trechos a
suspensão parecia um acessório dispensável, um peso a mais.
Cheguei ao fim da expedição sem uma conclusão sobre a
utilidade desse acessório. MXS = 45,5 km/h O Valdo acordou com dor de cabeça. Ressaca?
Quem sabe? Levantamos às 8:30h. Saímos do Residencial às 10:30h. A
manhã estava bonita, com céu nublado. As nuvens sobre a montanha
anunciavam chuva. Começamos a pedalar e os primeiros três
quilômetros foram de muitas subidas, o que só aumentou a nossa
convicção de que no dia anterior tínhamos parado na hora certa. Na
maior parte das subidas era preciso empurrar a bicicleta.Uma garoa
fina por alguns minutos antes de aparecer o sol que nos acompanhou
até o anoitecer. A viagem seguia tranqüila com as paradas
técnicas de hora em hora para comer, beber e descansar. Em média,
quinze minutos de parada. O grupo manteve-se unido. Quando os
primeiros perdiam o contato visual com os demais, paravam até que
todos estivessem juntos. Havia certo revezamento de posição. O
Fernando, muito calmo e observador, ia contando as formiguinhas que
encontrava pela estrada. O Almiro, com uma sobrecarga no guidão, ia
balançando a bicicleta. Dava até um nervoso na gente só em olhar
para o movimento da bicicleta. Como conseqüência do desequilibro, na
descida ia a passo de tartaruga. Nesse segundo dia, já começando a pedalar
no interior, íamos entrando cada vez mais no clima de aventura. Ao
longo do caminho várias pessoas passavam por nós em caminhonetes
gritando palavras de encorajamento ou buzinando. Um carro parou para
perguntar de onde éramos. Vimos paisagens muito bonitas e os
primeiros de muitos picos nevados, mas também muitas pedreiras e
áreas devastadas com árvores mortas. Nessa região havia termas e
cabanas, o que indicava uma região muito voltada para a exploração
do turismo. Lá pelas três da tarde, Valdo e Gustavo
estavam à frente do grupo. Ao perderem contato visual, pararam para
esperar os demais. Todos chegaram, menos o Nilson. O Almiro logo
falou: - Não precisa se preocupar. O Nilson é
atleta. Daqui a pouco ele passa correndo. Esperamos alguns minutos e nada de o Nilson
aparecer. Nós estávamos no topo de uma grande subida.
O
Valdo tirou os
alforjes traseiros e a barraca e voltou, ladeira abaixo, para ver o
que tinha acontecido. Depois da curva, avistou o Nilson que vinha
pedalando devagar. Voltou. O Fernando caminhou até a curva e viu o
Nilson empurrando a bicicleta. Todos ficaram curiosos em saber o
que tinha acontecido. O Nilson contou que tinha tido uma queda
espetacular. Ele era o último e na descida, uma sacola de comida que
estava no guidão soltou-se e caiu na roda dianteira. Ele tentou
agarrá-la e a roda dianteira entrou no cascalho. Deu um salto de
vários metros e esborrachou-se no chão. Entortou o bagageiro da
bicicleta e sofreu várias escoriações pelo corpo. Nada de muito
grave, mas sofreu por vários dias. Este segundo dia de pedalada já
serviu de advertência de que todo cuidado é pouco.
A viagem foi só de 47 km, mas com inúmeras
subidas. Grande parte da viagem foi feita a pé empurrando a
bicicleta carregada morro acima. A paisagem era exuberante. Dezenas de
riachos, rios e cachoeiras com água cristalina e gelada. A parada
para apanhar água gelada era irresistível. Hospedamo-nos num albergue bem na frente da
Rampa onde atracava o transbordador, por CLP$ 3.500 por pessoa, sem
café da manhã. O lugar era bom e a proprietária, dona Rosa, era um
amor de pessoa. Não tinha comparação com a antipatia da dona Loli do
Residencial Reloncavi. Aproveitamos para descansar, visitar a
cidade e encher os olhos coma belíssima paisagem do vulcão
Hornopiren (forno de neve) e as lindas montanhas nevadas. Ao ver o sol brilhando, a água convidativa
e várias crianças nadando, fomos dar um mergulho na água gelada. O
Almiro e o Ricardo não tiveram coragem de enfrentar a água fria. O primeiro jantar do ano novo foi à base de
ervilhas e pão, acompanhado por dois litros de vinho Gato Negro.
Como pano de fundo tinha um lindo pôr-do-sol às 10 horas da noite.
O jantar e o banho quente foram feitos na
casa da dona Rosa, a uns 30 metros de distância do albergue. Na
volta, trazíamos uma sacola de pão e outra com apetrechos de
cozinha. A máquina fotográfica do Fernando estava nesta última. O
Nilson levou as sacolas para dentro e deixou-as em cima da mesa, na
entrada do albergue. O Fernando devia apanhá-las ao entrar, mas como
ele e o Gustavo ficaram de papo até mais de meia noite, do lado de
fora, para terminar de “degustar” o vinho, esqueceram de levar as
sacolas para o quarto. De manhã tiveram a triste surpresa de ver que
a máquina fotográfica e os apetrechos de cozinha tinham sumido. No albergue onde ficamos em Hornopirén, o
Gustavo teve uma experiência muito gratificante. A dona Rosa
conversou muito com ele e contou de sua história recente, com muita
dor e muitas perdas. Sentiu que a experiência humana é muito
parecida e que mesmo um estrangeiro que escute nossos lamentos pode
ajudar a aliviarmos nossas dores. Também conversou com Josefa, uma
garotinha muito esperta de 5 anos. Apesar de estar viajando em grupo
ele não queria perder a oportunidade de interagir com as pessoas dos
lugares Domingo. O Valdo e o Ricardo ficaram em
casa para participar da Missa das 11 horas. Os demais saíram cedo
para uma pedalada pelo Parque Nacional Hornopiren. Saíram às 8
horas. Às dez horas começou um forte temporal. O Fernando começou a
sentir câimbras e preferiu voltar. Estava chateado com a perda da
máquina fotográfica. Ao voltar da Missa Valdo inteirou o Ricardo
sobre o roubo da máquina do Fernando, vindo a saber que ele,
Ricardo, ao subir para o quarto à noite, viu a máquina sobre a mesa
e guardou-a consigo por precaução. Ao chegar no albergue encontraram o
Fernando em baixo da coberta. Estava com frio e aborrecido.
Comentaram o roubo da máquina e disseram que iriam fazer uma
vaquinha para comprar uma nova para ele. O Ricardo trouxe a máquina
e perguntou se uma como aquela seria suficiente. O Fernando
reconheceu a máquina e abriu um sorriso desse tamanho, daquele que a
boca vai até a orelha. Acabou-se o frio. Ainda bem que foi só um
susto. Os outros três, Almiro, Gustavo e Nilson,
enfrentaram o temporal. Erraram a estrada e ao invés de entrar no
parque, pedalaram dentro do parque por uma estrada marginal à baía.
Na ida, pedalaram 20 km, boa parte debaixo de muita chuva e frio, na
expectativa de alcançar a entrada do parque. Em um certo momento o
Nilson entrou num abrigo e os outros dois passaram sem vê-lo.
Preocupados e acreditando que o Nilson estaria pedalando alguns
kilômetros à frente, os dois pararam e esperaram que ele voltasse.
Depois de esperam por uns vinte minutos e já preocupados com o
horário, resolveram voltar e deixar o Nilson entregue à sua própria
sorte. Chegaram na cidade preocupados, bolando estratégias para
apanhar um táxi e ir à procura do Nilson. Qual não foi a surpresa
dos dois ao chegar no albergue e ver o Nilson já de banho tomado e
colocando suas roupas para secar. Ele já estava em casa há mais de
meia hora e ao desencontrar-se dos dois tomou a decisão de voltar
só. Ele tinha quebrado a regra de nunca sair da visual dos colegas.
Não foi fácil, durante toda a viagem fazer cumprir esta regra. Mas
ela é muito importante para manter a integridade do grupo. Somente
na última semana conseguimos pedalar sempre juntos. O Gustavo, que gosta de interagir com as
pessoas, conheceu um casal de chilenos que passeava na cidade.
Ofereceu-se para tirar fotos e logo ficaram amigos, conversando
sobre seus países e suas vidas. Foi recebido de uma forma muito
calorosa. Nesse dia pegaríamos o “transbordador” e,
vendo as pessoas que se agrupavam em frente à nossa pousada para
pegar o barco pudemos, pela primeira vez, sentir o pulsar da
carreteira como um lugar que atrai aventureiros de todo o mundo. Na
fila estavam brasileiros, suíços, alemães e pessoas de outras
nacionalidades que tivemos a oportunidade de conhecer. Uma
caminhonete levava mais de 20 bicicletas provavelmente para algum
passeio contratado e com carro de apoio. Outras três bicicletas que estavam na fila eram de três suíços que estavam fazendo o mesmo que
nós: viajando pela Carretera Austral de bicicleta. O “transbordador” que faz a travessia de
Hornopiren até a Caleta Gonzalo devia sair às 16 horas. Como era o
primeiro dia atrasou e só saiu às 21 horas. Ainda tivemos 25 minutos
de luz até ver um inesquecível pôr-do-sol, como uma bola de fogo
apagando-se no mar. As algas fluorescentes pareciam reflexos das
estrelas do céu no mar. Sentimos o vento frio do mar, conversamos
com gente do Brasil, do Chile, da Suíça e da Alemanha. A vida é uma
viagem.
Chegamos à Caleta Gonzalo às 2h da
madrugada. Arrumamos nossos alforjes, empurramos nossas bicicletas
por cima das pinguelas até nos metermos em um camping e armar nossas
barracas perto de outras duas de pessoas que foram acordadas por nós
e não gostaram nada disso. Quando acabamos de montar as barracas já
passava das 4 horas da manhã. Todas as barracas estavam prontas e a
barraca do
Ele pediu ajuda para o
Fernando. Com a ajuda de lanternas, o Fernando descobriu que ao
invés de encaixar as varetas de alumínio nos suportes, o Almiro
tinha enterrado as quatro pontas no chão. Mais uns dez minutos e
finalmente a barraca ficou pronta. Dormimos sem entender exatamente
onde estávamos, tal era o cansaço, o frio e a escuridão. No dia seguinte vimos que estávamos em um
lugar lindíssimo! Reconhecemos a pinguela que passáramos à noite:
ela tinha 15 mts de altura e passava sobre uma bela corredeira. Que
adrenalina foi passar por ela à noite, sem enxergar nada, somente
com o barulho das águas! Pagamos CLP$ 1.500 por pessoa pelo
acampamento no Parque Pumalin.
MXS = 41 km/h ODO = 133 km DST = 27 km TM = 2:35 h AVS = 10,1 km/h Levantamos às 9h sendo que nossa saída
estava marcada para as 10 horas. Logo já eram quase 11 horas e o
pessoal ainda estava se enrolando... A distância a ser percorrida
era de 60 km. O nível de dificuldade era alto. Muitas subidas e
pedras soltas. Iríamos chegar em Chaitén por volta das 21 horas.
Pusemos em votação para saber se o grupo estava disposto a enfrentar
o desafio ou se preferia passar o dia ali e seguir no dia seguinte
bem cedo. A maioria decidiu ficar e fazer as trilhas. Pedimos informação e soubemos que havia
mais três camping antes de Chaitén a 10, 16 e 25 km. Tudo ficou mais
fácil e saímos sem pressa. A viagem por este trecho da Carretera
Austral é simplesmente maravilhosa. O som das cachoeiras acompanha
sempre o viajante. Cada paisagem nova é mais bonita que a anterior.
Aos 16 km nos deparamos com uma cachoeira de uma beleza
indescritível. Era a entrada para o primeiro camping que fica na
beira de um lago, em cima da montanha. Deixamos as bicicletas em
cima da ponte. O Almiro ficou na ponte e nós seguimos o “sendero” de
10 minutos para chegar perto da cachoeira. Era o mesmo “sendero” que
levava ao camping por uma linda escadaria de madeira pelo meio da
floresta. Era preciso caminhar 2:40h para chegar até o camping na
beira do lago. Infelizmente não pudemos fazer esta trilha.
Paramos várias vezes para fotografar e
contemplar as belezas naturais. No quilômetro 25 encontramos um
camping na beira do Lago Blanco, num desvio da estrada principal.
Estava deserto, mas pronto para recebe os turistas. Dispunha dois
banheiros muito bem asseados com chuveiro e tudo o mais. Escolhemos
uma cabana na beira do lago, bem ao lado de um córrego de águas
cristalinas. O lago é rodeado de altas montanhas. Ainda se podia ver
um filete de neve no topo da montanha. Duas barracas foram montadas ao lado do
banheiro, na beira da estrada. O Almiro montou a dele na beira do
lago. O Ricardo e Valdo montaram as barracas dentro da cabana,
depois do jantar que foi servido às 18 horas. O Nilson fez a revisão de todas as
bicicletas. Trocou as sapatas de freio da bicicleta do Almiro. Já a
do Valdo estava com um raio quebrado na roda traseira mas não pôde
ser trocado por falta do sacador de catraca. Às 19 horas, o Almiro
foi dormir, alegando que não tinha feito a sesta. Às 21 horas o
Ricardo apagou. O sol brilhava no horizonte. A temperatura caiu e
aos poucos terminou a jornada. Ao anoitecer recebemos a visita do
funcionário do Parque Pumalin, que fazia a ronda. Conforme
esperávamos, pagamos os CLP$ 1.500 por pessoa para utilizar o
acampamento(*). ----------------------------------------------- (*) Desde Caleta Gonzalo
estávamos pedalando dentro do Parque Pumalin, um parque de
propriedade do americano Douglas Tompkins (http://www.parquepumalin.cl).
Os dois campings que utilizamos eram padronizados e muito
bem cuidados, mas privados e relativamente caros, uma vez
que tínhamos a intenção de praticar o camping selvagem. MXS = 42 km/h ODO = 199 km DST = 66 km TM = 5:09 h AVS = 12,8 km/h Levantamos às 5:30h para fazer uma viagem
com calma, visto o trecho ser de dificuldade média. Na verdade foi
de grande dificuldade para o Gustavo, principalmente depois dos 50
km pedalados. Às 7:30 iniciamos mais uma linda etapa. A
bicicleta do Valdo tinha quebrado um raio no primeiro dia. Na hora
da revisão o Nilson tinha esquecido de levar a chave de catraca.
Teríamos que resolver o problema em Chaitén. Iniciamos a viagem que
deveria ser de 66 km e logo no início o Gustavo começou a reclamar
do câmbio dianteiro. Depois do ajuste não conseguia mudar as
marchas. Na primeira parada o Nilson fez mais uma regulagem.
Melhorou um pouco. Deixamos para resolver o problema em Chaitén.
A viagem prosseguiu tranqüila. Chegamos em
Chaitén às 11:15h. A primeira coisa que fizemos foi procurar uma
oficina de bicicleta e um lugar de acesso a Internet para
descarregar as fotos digitais. Ao chegarmos na oficina vimos uma
cena curiosa. Um senhor bastante jovem, de terno e gravata na porta
da oficina. Perguntamos pelo mecânico e ele apontou para o próprio
peito e disse: - Soy yo! Como estranhamos ver um mecânico nestes
trajes, ele explicou que era funcionário público e dono da oficina.
Ele pediu que voltássemos às 13 horas que ele ia trocar o raio. Passamos no centro turístico para pedir
informações. Fomos em três agências navais e encontramos um
“Catamaram” da Aysen Express que ia sair de Puerto Chacabuco no dia
19 com destino a Puerto Montt. Compramos as passagens de volta por
CLP$ 40.000 cada, sendo que os dois “abuelitos” Almiro e Valdo
tiveram 30% de desconto e pagaram apenas CLP$ 28.000. O Ricardo e o Gustavo liberaram a memória
das máquinas digitais. Fomos almoçar. Comemos um salmão que é de
fazer inveja a muita gente. O Gustavo comeu um prato típico à base
de mariscos e muitas outras carnes que parecia um banquete, o
Curanto. O almoço foi acompanhado de vinho e refrigerante que lá é
conhecido como “bebida”. Pagamos CLP$ 21.000 por seis refeições. Depois do almoço o Valdo voltou com sua
bicicleta à oficina, e foi muito bem atendido. Além de aprender os
nomes de várias peças de bicicleta em espanhol, descobriu que passam
pela cidade cerca de 20 cicloturistas de todas as partes do mundo
durante essa época do ano. Enquanto conversava, o restante do grupo
sofria na avenida
- Em Hornopiren entrei na água gelada e
depois de alguns minutos parecia que a água estava quente. Aqui é o
contrário: depois de alguns minutos parece que a água esfria. O Valdo e o Gustavo aproveitaram para fazer
um banho de lama. Era uma piscina com uns 30 cm de água. No fundo
havia areia preta e muito quente. A chuva fria continuava a
castigar. Bastava um minuto sentado na beira da piscina para receber
uma lufada de vento frio nas costas. Saímos da piscina às 21:45h Era
hora de enfrentar o frio. Montamos as barracas duas a duas, dentro
das cabanas. Tivemos que fazer uma proteção com o plástico para
evitar o vento forte e a chuva que castigou a noite inteira. Um jantar a base de pão encerrou o dia.
(*) É importante ressaltar que a
utilização dos clips no lugar dos pedais, requer um período
de adaptação, antes de partir para uma viajem longa, pois
altera consideravelmente a posição dos pés e mexe com as
articulações das pernas. Também há a necessidade de regular
o posicionamento dos alforjes trazeiros, para que não fiquem
raspando nos calcanhares. MXS = 36,5 km/h ODO = 223 km DST = 24 km TM = 1:47h AVS = 13,8 km/h
Na hora do café o Valdo tomava uma caneca
de café e uma caneca de chá. Não chegou ao fim do chá. Sua pressão
caiu e ele desmaiou. Foram apenas alguns segundos,mas o suficiente
para pesar ainda mais o clima no grupo. Nesse momento discutia-se
entre algumas pessoas do grupo que talvez estivéssemos correndo
muito mais riscos do que esperávamos, e para os quais não estávamos
preparados. Questionamos nossa falta de roupa, nossa saúde e até
nossa disposição em continuar nessas condições. O Nilson colocou
para o grupo o problema de seu saco de dormir. O Almiro falou da
possibilidade de pegarmos um carro alugado para voltar. Enquanto
isso o Valdo estava na barraca tirando mais uma soneca. Ele acordou
melhor de saúde e o grupo, ainda um pouco abatido, voltou a
mobilizar-se para a saída. Compramos pão a 100 pesos cada um. Pagamos
CLP$ 3.000 pelo uso da cabana e CLP$ 12.000 pelo uso da piscina. Uma
choradinha sempre ajuda a reduzir o alto preço que se paga no Chile.
Um americano que estava numa barraca ao lado veio pela Argentina.
Disse ele que na Argentina se gasta 1/3 do que se gasta no Chile. O Fernando foi contemplado com um furo no
pneu. Descobriu o furo quando foi preparar a bicicleta para deixar
as termas. Fizemos um lanche e deixamos as Termas às
11:50h com destino a Puerto Cárdenas onde chegamos às 14 horas. A
metade da viagem foi em baixo de chuva. Para nossa sorte, o vento
forte era a favor. Depois de uma hora paramos em cima de uma ponte
para o descanso e a reposição de energias. O visual do rio caudaloso
comas montanhas nevadas ao fundo era simplesmente encantadora. Como
estávamos parados, o vento castigava muito, por
Um pouco antes de Puerto Cárdenas,
encontramos a Hospedagem Lulu, ao custo de CLP$ 6.000, com café da
manhã. Ela disponibilizou um galpão para guardar as bicicletas e na
casa um fogão a lenha que servia de estufa para secar as roupas
molhadas do dia anterior. Toda a casa ficava aquecida. No lado de
fora estava um frio de doer até os ossos. O Fernando, usando a sua
criatividade, aproveitou um resto de ervilhas e preparou uma sopa
muito gostosa. Enquanto ele preparava a comida, o Valdo escrevia e o
Almiro dormia. Depois do almoço o Gustavo, o Almiro e o Fernando
desapareceram em baixo do cobertor. O Ricardo aproveitou para
atualizar o diário.
(*) Mesmo colocando capas de chuva para
proteger os alforjes, expostos a períodos prolongados de
chuva, começam a infiltrar água, a recomendação é utilizar
sacolas plásticas confiáveis, envolvendo todos os item que
compõem os alforjes. MXS = 40,5 km/h ODO = 239 km DST = 16 km TM = 1:14h AVS = 12,2 km/h Uma noite de sono reparador. Para
alguns parecia um hotel de 5 estrelas. A dona Lulu superou todas
as expectativas. Cobrou caro pelo pão (CLP$ 1.000 cada pão
caseiro) mas em compensação nos ofereceu pão à tarde e à noite.
O café da manhã foi simplesmente maravilhoso: pão, queijo
caseiro, omelete, manteiga, mousse e mel de abelha.
Depois de tudo pronto para a partida,
ouvimos o grito de alerta do Gustavo: o pneu dianteiro estava
furado. Ajudamo-lo a tirar os alforjes dianteiros e o Nilson
trocou a câmara. O Gustavo usou a câmara que tinha tirado dois
dias antes, que, segundo o Nilson, estava com problema na
válvula. Tudo pronto para a partida. Algumas pessoas deram a partida e 300
metros depois da curva pararam para esperar os retardatários.
Esperaram, esperaram e nada dos retardatários aparecerem. Depois
de alguns minutos apareceu o Ricardo dizendo que a câmara que o
Gustavo tinha trocado estava furada. Começou a chover e nós
voltamos para o galpão. Com as duas trocas de câmaras tivemos um
atraso de 50 minutos. Nada importante uma vez que a etapa seria
muito curta. A menos de dois quilômetros do destino,
paramos para fazer uma trilha de 300 metros até uma fonte de
água mineral. O Almiro e o Nilson não tiveram a coragem de
enfrentar a trilha. Os demais seguiram em frente. O piso da
trilha era feira de tábuas e ela estava um pouco abandonada
devido à falta de uso, pois estávamos no início da temporada.
Faltavam apenas 30 metros para chegar na fonte e a trilha
piorou. O Fernando que ia na frente, seguido pelo Ricardo,
resolveu voltar. O Ricardo também fez meia volta. O Valdo tomou
a dianteira e depois de alguns metros avistou a fonte. Gritou
dizendo que tinha chegado. O Gustavo que vinha atrás conseguiu
convencer os dois desistentes a seguirem adiante.
Mais dois quilômetros de pedalada,
chegamos na entrada do Ventisqueiro Yelcho (glacial), onde
existe um camping rústico. Pagamos CLP$ 1.500 por pessoa para
acampar e visitar os glaciais. As bicicletas foram guardadas dentro de
uma grande cabana, onde passaríamos a noite, e logo iniciamos a
trilha de duas horas. Em certo trecho da trilha, paramos para
tirar uma foto, com o Ventisqueiro como plano de fundo, o
Ricardo se propôs a tirá-la, ele se posicionou e ao tentar pegar
o melhor ângulo de todos, foi indo para trás, e sem perceber,
tropeçou em um galho e acabou levando o maior tombo, que quase
rolou ribanceira abaixo se o Valdo não tivesse lhe segurado a
mão. No caminho passaram por nós algumas pessoas de várias
partes do mundo. Uma, que parecia americana, disse que a trilha
estava péssima e não valia o sacrifício de vencê-la, uma vez que
estava nublado e o ventisqueiro encontrava-se coberto de nuvens.
Ao ignorarmos seus conselhos e seguir a trilha, não pudemos
concordar com ela. O Ventisqueiro Yelcho é realmente imponente,
uma paisagem de tirar o fôlego. Chegamos ao fim da trilha depois
de avistar 25 placas numeradas, colocadas ao longo da trilha
para informar que estávamos na direção certa e quanto ainda
faltava para chegar. Nesse momento, metade do grupo já estava
cansado e satisfeito, e resolveu voltar. Valdo, Nilson e Gustavo
seguiram adiante. Depois de 150 metros encontraram os primeiros
blocos de gelo. Os três atravessaram o rio gelado e seguiram em
direção ao glacial Quando se aproximaram o sol começou a brilhar
nos glaciais promovendo uma visão realmente de tirar o fôlego.
Chegaram a uns 400 metros de onde começa a formar o degelo.
Um fogo aceso no centro da cabana nos
aguardava. O Fernando preparou uma panela de miojo acompanhada
de pão caseiro da dona Lulu. Que delícia! Para evitar o frio e a chuva, as
barracas não foram armadas nessa noite, optando por agrupar os
sacos de dormir em um lugar no fundo da cabana. Como o espaço
era pequeno todos dormiram um ao lado do outro, com pouca chance
de se movimentar. Cada nova experiência tem seus lados
divertidos...
ODO = 329 km DST = 90 km TM = 7:18h AVS =- 12,2 km/h O Almiro deu CLP$ 3.000 para o dono da
camping comprar dois litros de vinho em Chaitén, para fazer o
bota fora do Fernando. O vinho deveria chegar às 21 horas, mas
só chegou as 23:15h. Enquanto esperávamos, o Sr. Luis, um
chileno que estava acampado com a família, nos brindou com duas
ótimas garrafas de vinho. Já passava das 22:30h quando fomos
dormir. Eram seis sacos de dormir espremidos, um ao lado do
outro.
No meio da cabana havia uma grande
fogueira que serviu para secar a roupa. O problema foi que o
cheiro da fumaça impregnou toda a roupa e que perdurou por
vários dias.
Pela
primeira e única vez, iniciamos a pedalada em rumo oposto a um
companheiro, o Fernando, que rumava de volta a Chaitén e a
Joinville. Tiramos fotos e nos despedimos daquele que tinha nos
cativado com sua disposição, seu tempero, seu temperamento e
seus comentários sobre tantos detalhes que passavam
desapercebidos aos olhos de alguns de nós. Nesse dia sabíamos que nos primeiros 9
quilômetros deveríamos enfrentar uma terrível subida da Cuesta
Moraga, até
-
Onde está a dificuldade? Começamos a grande descida. Alguns
chegaram a 60 km/h, fazendo um downhill no cascalho com a
bicicleta carregada. O Almiro desceu segurando os freios com
medo de cair(*)[1] Se a Cuesta Moraga foi fácil, grandes
subidas nos esperavam pela frente ainda nesse dia. Nos primeiros
40 km o Ricardo vinha sempre por último. Parava com muita
freqüência. O Gustavo, que tinha inspirado um pouco de
preocupação dois dias antes, estava perfeitamente em forma. O
Almiro comportou-se muito bem, chegando mesmo a nos surpreender,
pela disposição que demonstrou. A viagem foi realmente muito
bonita, montanhas nevadas exibindo t Foram sete horas e dezoito minutos de
pedalada e quase doze de estrada! O Ricardo, o Gustavo e o
Almiro superaram os próprios recordes de distância pedalados em
um só dia. Foram 90 km de estrada de pedra! Nada mal para quem
está iniciando este esporte. Os últimos 10 km foram
particularmente difíceis por causa da grande quantidade de pedra
solta na estrada enlameada. Uma patrola havia passado há pouco
tempo e deixado a estrada muito difícil para os ciclistas.
Chegamos na pacata e linda cidade de La Junta às 20:30h bastante
cansados e debaixo de chuva. Hospedamo-nos no Residencial
Elizabeth por CLP$ 3.500 por pessoa sem café da manhã e com
banheiro no quarto. Fizemos um lauto jantar a base de salmão e
“côngrio” por CLP$ 3.500 por pessoa. Um pouco caro, mas
inevitável diante da fome do grupo.
(*) Essa precaução lhe custou a
troca de dois pares de freios, pois com o tempo chuvoso
e com o piso molhado, o desgaste das borrachas é muito
maior. Dispensamos o café que custava CLP$
1.500 por pessoa e usamos o refeitório do residencial para tomar
o nosso café com pão e queijo. Decidimos mudar o nosso roteiro. Ao
invés de ir sempre pedalando para o sul, resolvemos apanhar o
ônibus e ir até o final para pedalar do sul para o norte. Assim
poderíamos conhecer toda a Carretera Austral e pedalar na parte
que nos fosse possível. As informações eram desencontradas.
Sabíamos que o ônibus saia entre as 12 e as 14 horas. Preparamos
as bicicletas e fomos para o lugar indicado.Às 11:45h o Almiro
pediu informação e soube que estávamos no lugar errado. O ônibus
passaria na rua principal. Seguimos até o lugar indicado e
tivemos a desagradável notícia de que o ônibus em questão era
apenas uma Van e que a mesma já vinha lotada de Chaitén.
Transformamos o banheiro em cozinha
para abrigar os fogareiros contra o vento. O Gustavo assumiu a
cozinha. Sentou no trono e preparou um almoço delicioso. O sol brilhou o dia inteiro e foi
possível secar a roupa. As montanhas ao redor de La Junta
exibiram seus cumes brancos de gelo, servindo de espelho para o
sol. Aproveitamos para fazer um passeio pelos arredores, sem os
alforges. O Almiro e o Nilson compraram querosene
e o Nilson fez uma lavagem geral nas bicicletas, eliminando todo
o barro impregnado, percebemos que a mudança entre as marchas
melhorou No final da tarde fizemos outro acordo
com o dono da Van. Ele nos levaria até Cochrane, distante 585 km
de La Junta, por USD 375,00 dólares incluindo a pousada, ou
seja, USD 75,00 dólares por pessoa = .CLP$ 41.250 pesos = R$
195,00. Ao anoitecer tivemos um tempo ocioso e
nos agrupamos em um quarto para jantar nossos primeiros
“bifinhos” desde que saímos do Brasil. A carne estava um pouco
dura, mas pudemos saciar nossa vontade. Ficamos conversando até
mais tarde, sentindo que cada vez mais constituíamos como grupo.
Cada vez mais expúnhamos uns para os outros e sentíamos mais
co-responsáveis pelo bem estar um do outro.
Iniciamos a viagem às 8:45h com destino
a Coyhaique, onde chegaríamos às 15:30h, depois de uma linda
viagem pelo Parque Queulat com muitas montanhas e o lindo
Ventisqueiro Colgante, que se estendia até em cima da Carretera.
Que espetáculo! Algo nunca visto por nenhum de nós. Ao sairmos
do parque a paisagem começou a mudar. Entramos em outro tipo de
vegetação, mais baixa. As florestas ficaram para trás. O clima
também mudou.
Às 18:45h entramos na igreja e
percebemos que não havia ninguém. Fomos consultar o horário e
vimos que durante o verão a missa é celebrada às 20:00h. Saímos
para um passeio. Todos estavam com fome e resolvemos ir jantar,
o Valdo voltou para a Igreja pois queria participar da Missa
dominical. Após a missa, resolveu não jantar, mas só por
curiosidade, passou no restaurante dos Bombeiros, que dizem ser
o mais barato da cidade. Como estava aberto, entrou. Estava sem
os óculos e quando a garçonete trouxe o menu resolveu jantar e
pediu Salmão, salada e uma garrafa pequena de vinho. Nem precisa
dizer que o jantar estava
Como as malas e as bicicletas tinham
ficado em cima da Van, nós ficamos só com a roupa do corpo.
Tomamos banho quente, mas tivemos que vestir a mesma roupa. Deixamos a pousada às 9 horas com
destino a Cochrane. Na saída paramos numa loja de bicicleta para
comprar mais um par de pastilhas de freio para o Almiro. Depois
que ele gastou um par, ficou preocupado com os freios. O dia estava com um sol maravilhoso. A
viagem foi muito boa com paisagens espetaculares. Contornamos o
Lago General Carrera de cor azul esmeralda com água gelada onde
é possível pescar trutas. Um espetáculo deslumbrante para os
nossos olhos. O percurso é muito acidentado. Numa das montanhas,
chegamos a 1.150 metros acima do nível do mar. Chegamos em
Cochrane às 17 horas. Ficamos num Residencial por CLP$ 5.000 com
café da manhã.
ODO = 399 km DST = 70 km TM = 5:47h AVS = 12,2 km/h Levantamos às seis horas. Montamos os
alforjes, tomamos café às 7:10h e saímos de Cochrane às 7:45h.
Logo na saída da cidade, começamos a subir. Subimos tantas
montanhas que até perdemos a conta. A paisagem era deslumbrante.
Quanto mais subíamos, empurrando a bicicleta, mas bela era a
vista panorâmica.
Chegamos em Puerto Bertrand às 14:30h.
O ciclocomputador marcava 42 kms. Decidimos seguir adiante e
fazer um camping selvagem. No quilômetro setenta, encontramos um
excelente lugar para acampar. Um bosque ao lado de um arroio de
águas cristalinas a poucos metros do lago. No princípio, alguns
não gostaram muito, mas depois que o sol apareceu, as coisas
mudaram. Usamos o plástico do Gustavo, de 6 x 3 metros, para
fazer uma cobertura para as
ODO = 451 km DST = 52:57 km TM = 5:03h AVS = 10,3 km/h O Almiro estava mesmo impaciente,
talvez por causa do frio ou do desconforto da barraca(*).
Fazia muito frio, mas o sol brilhava lá fora. Levantamos às
7:15h. Quando olhamos para o lago, ficamos de boca aberta. As
montanhas nevadas se espelhavam no lago formando um espetáculo
de rara beleza. No dia anterior as montanhas estavam cobertas.
Nem sabíamos que estávamos tão perto do gelo. Eis porque a noite
foi tão fria. É impressionante a diferença entre um dia de sol,
com o céu aberto e um dia de nuvens onde não se pode ver as
montanhas que nos rodeiam.
Até a travessia do “desaguadero” do
Lago General Carrera, a pedalada foi normal, apesar das subidas.
Após a travessia de Ferry Boat (a ponte está sendo construída
com previsão para inauguração em julho) subimos uma pequena
encosta e logo começou o vento. Era um vento contra tão forte
que quase empurrava a bicicleta para trás. Num dado momento,
veio uma lufada de vento. O Valdo parou para se proteger. O
Almiro vinha atrás, pedalando com a cabeça baixa. Ouviu-se um
baque na roda traseira. Nada de grave, apenas um raio quebrado
que foi trocado ao chegarmos no acampamento.
Para nossa sorte, tudo não durou mais
de uma hora, pois ao fazer o contorno do lago, mudamos de
direção e o vento começou a soprar a favor. Que maravilha!
Quando nós pedalávamos nem sentíamos o vento. Bastava parar para
sentir o vento gelado nas costas, que vinha das montanhas
geladas. Nesse dia o Almiro amanhecera com dor
de cabeça. Tomou um Paracetamol. Pedalou até às cinco da tarde e
a dor de cabeça não parou. Doía a nuca. No camping tomou um
medicamento para controlar a pressão. Também não resolveu.
Faltavam poucos quilômetros para chegar
em Puerto Tranqüilo. Estávamos no alto da montanha. Lá em baixo
avistava-se o Lago General Carrera com suas águas azuis. Uma
placa indicava: Excursão para a Catedral de Mármore. Resolvemos
descer. Era uma encosta de uns 300 metros de desnível, muito
Acampamos ao lado do Lago num lugar
magnífico. O camping não tinha muita infra-estrutura, mas além
de ser grátis, tinha uma privada no meio do bosque e um fogão a
lenha onde fizemos a comida. Pagamos CLP$ 15.000 para fazer a
excursão em um pequeno barco, até a Catedral de Mármore. Valeu a
pena. Um espetáculo único, capricho da natureza.
(*) Nota do Valdo: O Almiro acordou e me perguntou:
-
Que horas são?
Meio
dormindo, eu vi mal a hora e respondi:
-
Seis e meia. E continuei a dormir.
Todos dormiam, menos o Almiro. Mais tarde ele perguntou
de novo:
-
Que horas são? Já estava mais claro. Olhei bem no
relógio e disse:
-
Seis e quinze. É muito cedo, Almiro. Dorme! Fui acordado
por ele pela terceira vez às 6:45h.
ODO = 513 km DST = 62 km TM = 5:27 h AVS = 11,4 km/h Uma noite fria, mas bem dormida. O
vento soprou a noite inteira batendo na copa das árvores. Nós
estávamos protegidos apenas ouvíamos o barulho. Às sete horas
ouvimos o Ricardo cocoricando como um galo para acordar o
pessoal. O Almiro mandou dar uma pedrada no galo. Na noite anterior tínhamos ficado
conversando, sentados num banco, à beira do lago, contemplando o
magnífico panorama do Lago General Carrera. Recolhemo-nos às
22:15h e ainda era dia claro.
Estávamos preocupados com a subida de
300 metros. Na verdade, foi bem mais fácil do que se esperava.
Levamos apenas meia hora para chegar na carretera. Descemos dois quilômetros e chegamos em
Puerto Tranqüilo. O Almiro comprou dois pacotes de bolacha
recheada, mas ninguém se lembrou de comprar pão. Pedalamos três horas e meia rodeando o
Lago General Carrera. Pegamos vento contra durante meia hora. É
sempre cansativo pedalar contra o vento além de sentir muito
frio.
Ao chegarmos na entrada de Puerto
Murta, vimos que a vila estava a 4 km de distância. A intenção
era comprar pão. O Nilson, o Gustavo e o Almiro tinham seguido
na frente. Quebraram a regra de nunca perder o contato visual. O
Valdo e
Este pequeno incidente serviu para unir
o grupo. O resto da viagem foi feita em fila indiana. Quem ia na
frente marcava o ritmo e, de vez em quando, havia o revezamento.
A experiência foi boa. Restava saber se o grupo iria se manter
assim até o final. Às 17 h encontramos um lindo lugar para
fazer um
Do outro lado do Rio Ibañez há uma alta
montanha coberta de neve que soprava um vento gelado em nossa
direção. Ainda bem que as árvores nos protegiam, senão iríamos
congelar durante a noite. O Gustavo e o Valdo caminharam uns 100
metros pelo leito seco do rio até chegar à beira da água.
Sentaram num tronco seco. Depois de um papo gostoso, o Gustavo
se retirou por causa do vento frio. O Valdo aproveitou para
escrever o diário e usou o resto do tempo para meditar, ouvindo
apenas o barulho das águas e o assobiar do vento frio. ----------------------------------------------------
[1] Nota do Valdo: Na
verdade, eu queria castigá-los por não os terem
esperado. Fiquei um pouco chateado por ter agido assim,
principalmente por ter dito uma inverdade, embora a
lição tenha servido ao grupo. MXS = 46 km ODO = 588 km DST = 75 km TM = 5:35h AVS = 13,3 km/h Uma noite muito fria. Durante a
madrugada, uma chuva fraca ajudou a esfriar ainda mais.
Acordamos às sete horas com o cocoricó do Ricardo, mas ninguém
se animou a levantar. As gotas de orvalho, ou da chuva, caíam em
cima das barracas. Ninguém levantou para ver como estava o tempo
fora do bosque. Dormimos mais meia hora e aos poucos a vida
começou a aparecer no acampamento. Como estávamos sem pão, o café foi
racionado. Dois pacotes de bolacha, separados em porções iguais.
No nosso grupo ninguém tinha privilégios apesar dos desníveis de
idade. Havia outra preocupação com o que iríamos comer durante a
viagem, uma vez que estávamos no vale da morte. O vale tem este
nome por causa de uma erupção vulcânica que aconteceu em 1991.As
cinzas vulcânicas mataram todas as árvores e os animais da
região. A vida recomeçava aos poucos. Já
existem alguns moradores na região. Encontramos um rebanho
bovino na estrada, mas não vimos ninguém por perto.
As primeiras duas horas foram de
subida. Chegamos a 600 metros de altitude. Depois da descida,
entramos no Vale da morte. Todas as árvores estavam secas. O
espetáculo é bonito e tétrico ao mesmo tempo. A vida recomeça
por baixo. Uma pequena vegetação verde começava a se formar no
meio das árvores secas. Em compensação a estrada é tão lisa que
até parece asfalto. Se antes a velocidade não passava dos 5
km/h, ao chegarmos na descida de terra firme, todos se animaram
e a velocidade passou dos 30 km/h. Para ajudar ainda mais,
tínhamos
Faltavam apenas dois quilômetros para
terminar a etapa. Pegamos um desvio para ver as inscrições
rupestres, num lugar arqueológico chamado “Las Manos”. Foram
dois quilômetros por uma estrada secundária com descidas, pedras
soltas e muita areia. Mesmo assim, ninguém caiu. Chegamos ao
lugar e na vitrine havia uma página escrita a mão dando as
boas-vindas. O preço da visita guiada era de CLP$ 1.000 por
pessoa. Como o guia estava ausente, pedia que, quem quisesse,
podia colocar o dinheiro por baixo da porta.
Chegamos em Cerro Castillo às 18 horas.
Hospedamo-nos no Residencial el Castillo por CLP$ 3.000 sem café
da manhã. Depois de três noites de camping
selvagem, a primeira coisa que todos queriam era um banho
quente. O primeiro a entrar no chuveiro foi o Gustavo. Sem
querer exagerar, também porque não marcamos no relógio, mas ele
deve ter demorado pelo menos uns 10 minutos em baixo do
chuveiro. Como só havia um chuveiro, os demais esperaram
pacientemente. Aproveitamos para lavar a nossa roupa.(*) O sol e
o vento forte ajudaram a secar toda a roupa.
Todos já de barriga cheia, foram curtir
um colchão quentinho, depois de três noites de frio nas
barracas.
(*) Nota do Gustavo:
Direito de defesa: demorei porque os aquecedores
chilenos esfriam e esquentam quando eles bem querem e
porque precisava de lavar umas roupinhas. Claro que
depois me arrependi vendo tantos companheiros sujos e
amarrotados precisando de um banho há três dias,
enquanto eu saía limpo do banheiro. MXS = 67 km ODO = 687 km DST = 99 km TM = 7:55 h AVS = 12.4 km/h Às nove horas da manhã iniciava na
cidade um famoso rodeio com a participação de cavalos de várias
partes do país.Os cavaleiros usando trajes típicos. O pessoal
até que estava animado a participar da festa, mas por fim,
resolvemos seguir adiante. Tínhamos que enfrentar a “Cuesta del
Diablo” com 14 km de subida, chegando a 1.120 metros de
altitude. Fizemos um alongamento no residencial e partimos em
ritmo de aquecimento para não nos cansarmos depressa. Desde o
início tivemos uma simpática e agradável companhia: um
Esse dia teria sido uma maravilha se
não tivéssemos enfrentado o vento contra. O asfalto era
impecável. A nossa intenção era acampar duas noites em Coyhaique.
Achamos um camping dentro da cidade mas o preço era de CLP$
3.000 por pessoa. Decidimos voltar para a Hospedaje Guibel,
Calle Lautaro, 1244 – Barrio Seco, da dona Mercedes, onde já
tínhamos pernoitado na ida. Acertamos o preço por CLP$ 3.000 sem
café da manhã. Nada como um bom banho quente para
recuperar as energias. Fomos ao Supermercado comprar macarrão e
carne para o Gustavo preparar o nosso jantar: um delicioso
talharim à bolognesa! Ricardo e Gustavo se esmeraram e, com a
ajuda da Dona Mercedes, conseguiram acertar a receita! Todo
mundo se esbaldou! Comemos juntos dez porções, e éramos apenas
cinco... Também, pudera, foram 100 km pedalados! No dia seguinte, domingo, aproveitamos
para descansar. Participamos da Missa das 10 horas e fomos até o
centro para gravar as fotos no CD. O Almiro estava com sede e
sentou-se numa mesa, na calçada, para tomar água, os demais o
acompanharam. Foram duas águas pequenas e dois refrigerantes. Na
hora de pagar, ele ficou espantado, o preço normal do
refrigerante e da água é CLP$ 300. Ele pagou CLP$ 1.200 cada um.
Um assalto à mão desarmada !. O mais curioso foi que ainda
pedimos ao garçom para tirar uma foto do grupo. A foto vai
servir como recordação do “assalto”.
- Hoy aprendí un nuevo plato, que rico
!!! É claro que não faltou o delicioso
vinho chileno que ali custava CLP$ 1.800 a embalagem tetrapack
de dois litros. Depois do almoço o Gustavo e o Ricardo
aproveitaram da carona do Marcelo, filho da dona Mercedes, e
foram visitar os lagos da redondeza. O Nilson se encarregou de
lavar a louça. Os três que ficaram em casa,
descansaram um pouco e depois saíram para um passeio pela
redondeza. No final do dia, fizemos um lanche no
nosso quarto e depois, sentados em duas camas, filosofamos até
meia noite, pela primeira vez tocando em temas como
espiritualidade e sentido da vida. MXS = 45 km ODO = 659 km DST = 72 km TM = 5:01 h AVS = 14,5 km/h Não houve cocoricó de galo. Acordamos
às 7:30h. Como a etapa seria relativamente fácil, não tínhamos
pressa em deixar a cidade. O Almiro tinha proposto sair bem cedo
para evitar o vento contra, mas como nesta região o vento não
tem hora para aparecer, concordou em sair mais tarde. Começamos a pedalar às 9:45h. Os
primeiros dois quilômetros foram de descida para preparar os 5
km de subida em caracol, sem muita dificuldade até chegar ao
mirante, de onde se contempla a cidade de Coyhaique. Uma linda
visão para compensar o esforço da subida. O grupo seguia
compacto, numa velocidade moderada, sempre descendo às margens
do rio Simpson, durante 42 km, sempre com vento contra. Somente
ao chegar no final da nossa
É interessante ver como não existe
idade para fazer cicloturismo. Apenas é preciso disposição e um
certo preparo físico.
Depois de passar no centro de
informação turística, visitamos a Praça de Armas e seguimos em
direção oposta a Puerto Chacabuco para acampar. Encontramos um
lindo lugar, à beira do rio, para acampar pela última vez. O Almiro queixou-se, pela segunda vez,
de dor de estômago. Já era o segundo dia. Ainda bem que o
Ricardo tinha um comprimido milagroso (Pepto bismol).
ODO = 780 km DST = 20:41 km TM = 1:41 h AVS = 12 km/h Um lugar muito bonito para acampar, mas
muito barulhento. Estávamos a poucos metros de um ancoradouro de
uma balsa que trabalhou a noite inteira. Mesmo assim,
conseguimos dormir até às 8 horas. Tínhamos apenas 20 km pela
frente e um dia inteiro para gastar. Deixamos o acampamento às
8:40h. Na saída encontramos um casal de brasileiros da cidade de
Piracicaba que, juntamente com mais nove pessoas, tinham alugado
um barco para navegar até a Laguna San Rafael. Pagaram CLP$
1.800.000 pela viagem de 4 dias, algo assim como USD 260 dólares
por pessoa.
O Ricardo, o Gustavo e o Valdo saíram,
para confirmar a partida para o dia seguinte. Chegaram ao porto
e receberam uma má notícia. O Catamaran estava com o motor
quebrado em Puerto Montt e não tinha previsão de retornar a
viajar. Tomaram o ônibus e foram até Puerto Aysén para tentar
resolver o problema. O escritório da Agência Aysén Express
estava fechada. Foram a um local de chamada telefônica e ligaram
para Coyhaique. Passados alguns minutos, foram convidados a
passar no escritório da empresa que já estava aberto. A primeira
proposta do funcionário foi que deveriam voltar no dia seguinte,
às 9 horas para receber o dinheiro de volta. A pergunta
espontânea foi: - O que é que nós vamos fazer com o
dinheiro? Depois de alguns minutos, ficou
decidido que eles iam procurar uma solução para o dia seguinte.
O Almiro o Nilson e o Valdo saíram para
comprar comida para o almoço e café da manhã. O Gustavo e o
Ricardo subiram até a Hospedaje Guibel, onde já tínhamos dormido
três noites, para fazer uma visita à dona Mercedes. Acabaram
combinando de levar bebidas e temperos e ela se prontificou em
preparar as famosas “empanadas chilenas”, para comermos à
noite.Depois do almoço, caminhamos até o centro para fazer
câmbio e descarregar as fotos no CD.
Na hora da saída a dona Mercedes nos
ofereceu duas caixas de cerejas, que serviu para o café da manhã
do dia seguinte. Percebemos neste momento a amizade que nasceu
do nosso grupo com a família da dona Mercedes, a alegria de ter
nos recebido e o carinho com que todos nos trataram. Às 11 horas liberamos o quarto e fomos
para a portaria jogar xadrez, dominó e por fim fizemos um
lanche. Às 13.15h chegou outra Van para fazer o
“transfer” para o aeroporto de Balmaceda. Foram mais 42 kms rumo
ao sul e à fronteira com a Argentina. Os bilhetes já estavam no check in, de
modo que não houve problemas. Nem sequer pagamos pelo transporte
das bicicletas. Depois de um lindo vôo de 50 minutos,
sobrevoando a Ilha de Chiloé e apreciando as montanhas nevadas,
chegamos a Puerto Montt às 17 horas. Fomos realmente
privilegiados com o tempo. Um dia assim não é muito comum nesta
região. Na verdade, desde o dia 10, pegamos sempre bom tempo com
muito sol e céu aberto.
Os outros montaram os alforjes na
bicicleta e pedalaram 14 km até o Colégio Salesiano onde ficamos
hospedados. Ao chegar no Colégio, encontraram o Ricardo e o
Gustavo que tinham deixado as bicicletas na rodoviária e tinham
vindo de coletivo para buscar a passagem e a mala-bike que
estava no Colégio. O Gustavo acompanhou o Ricardo até a
rodoviária e depois voltaria pedalando. Ia também comprar salmão
defumado para o jantar. Saíram às 19 horas. Às 20 horas o Almiro
sugeriu que pensássemos em outra coisa para espantar a fome.
Queria esperar pelo Gustavo para preparar o jantar. Como ele
queria deitar e estando com fome, preparamos um chá com
sanduíches. Esperávamos que o Gustavo chegasse pelas 9 horas. O
tempo foi passando. 9:30h. 10h. Anoiteceu. Nada
Foi uma situação constrangedora, era um
misto de alegria ao ver o irmão de volta e de revolta por ter
vivido uma situação angustiosa sem necessidade. Embora fôssemos
todos adultos, o Valdo se sentia responsável pelo grupo.
Já passava de meia noite quando comemos
o salmão e tomamos o vinho.
(*) Nota do
Gustavo: Saí para ajudar o Ricardo a embarcar, sem
imaginar que demoraria tanto. Na verdade passei todo o
tempo ocupado em ajudar o Ricardo a fazer umas compras,
ir ao mercado Angelmo e desmontar a bicicleta. Claro que
me senti constrangido ao ver que meus companheiros
tinham ficado preocupados, mas não via meios de tê-lo
evitado. Acordamos com frio e chuva forte. Já
passava das nove horas quando o Almiro bateu na porta. Às onze horas já tinha parado de
chover. Munidos das nossas capas de chuva, saímos a pé para o
centro. Apenas dois quilômetros. Gravamos um CD para cada um com
as fotos digitais e caminhamos até o Mercado Angelmo, lugar
turístico com restaurantes típicos. Percorremos todos os
corredores antes de decidir por um bem típico, no meio do
mercado. O preço variava entre CLP$ 2.000 e 2.500 o prato de
salmão ou marisco. Comemos dois salmões e dois “curantos”,
uma travessa com vários tipos de mariscos, frango, calabresa,
sopa e mais um cozido que não conseguimos identificar. Uma
verdadeira delícia. O Almiro nos brindou, em nome da Grings, com
duas garrafas de vinho. O Gustavo estava super empolgado em
comer num restaurante típico. Valeu!
Na
volta aproveitamos para fazer compras. Repartimos CLP$10.000
para cada um, do caixa comum. O restante ficaria para ser
repartido em Santiago. Voltamos para o Colégio para o banho,
jantar e preparar as bicicletas para seguir para a rodoviária. O
Almiro desmontou a bicicleta, pôs na caixa e foi de táxi para a
rodoviária. Os demais foram pedalando e usaram a mala-bike na
rodoviária. Houve certo contra-tempo na hora do
embarque. A nossa passagem estava marcada para as 22:30h. O
ônibus que encostou marcava 22:45h. Depois de um pouco de
confusão, descobrimos que a nossa passagem estava como horário
errado mas o ônibus era o mesmo das 22:45h.
Uma viagem inesquecível. Nunca poderia
imaginar que um grupo de pessoas desconhecidas, de diferentes
idades, conseguisse fazer uma viagem de quase um mês, com tanta
harmonia, respeito e amizade. Havia uma preocupação constante de
tornar a viagem sempre mais agradável. Cada um se esforçava para
dar o melhor de si mesmo. Mesmo nos momentos de maiores
dificuldades, sempre houve compreensão e otimismo. De um grupo de pessoas que não estava
fisicamente preparado para uma viagem deste porte, o que se
poderia esperar? Ninguém fazia uma idéia exata. A garra com que
todos enfrentaram o desafio; a vontade de vencer; o desejo de ir
ao encontro do desconhecido e de superar os próprios limites,
foi o moto propulsor de tudo. Alguns não acreditavam em si
mesmos; tinham medo de fazer feio ou de atrapalhar o grupo. Mas
o que foi que presenciamos? Muita camaradagem, compreensão com
os limites de cada um. Quem estava num ritmo superior foi aos
poucos se adaptando aos demais. Não se tratava de uma competição
para ver quem era o melhor. Todos queriam curtir ao máximo as
belezas naturais que a Patagônia chilena oferece em abundância.
Se fosse necessário, parávamos dez vezes, no intervalo de uma
hora, para admirar as maravilhas que nos rodeavam. Outra conclusão a que cheguei foi a de
que não existe idade para fazer cicloturismo. Basta um mínimo de
preparo físico e muita disposição. É necessário também estar
preparado para enfrentar desconforto, além das coisas boas que a
viagem oferece. Saber viver em plenitude os pequenos momentos
que a vida nos oferece. Foi o que fizemos durante a nossa
expedição pela Carretera Austral. Ao terminar a viagem, uma grande
alegria irradiava do rosto de todos. Parecia que cada um
estivesse acordando de um sonho impossível. Mas não era sonho,
era a realidade da vida vivida em toda a sua intensidade,
durante muitos dias de liberdade total. Obrigado meu Deus por esta aventura. Obrigado a todos os participantes que
souberam dar o melhor de si mesmos para tornar este sonho uma
realidade. Até a próxima. Valdo
Sair da rotina e se aventurar é fundamental. A vida nas grandes
cidades pode ser muito dura, impessoal, desigual. Convivemos com
pessoas fantásticas sem nunca nos aproximarmos de fato, devido
aos formalismos, às expectativas, ao jogo social. Quando comecei
essa viagem estava vindo de uma seqüência de compromissos de fim
de ano que me faziam sentir muito preso e muito responsável:
relacionamentos amorosos mal acabados, crises pessoais em casa,
compromissos de trabalho... enfim: precisava de férias! Férias é
aquele período em que podemos ser iguais. No trabalho temos
hierarquias, diferentes atribuições de responsabilidade,
diferentes remunerações. Nas férias temos tempo de sermos nós
mesmos: frágeis, egoístas, medrosos, sonhadores, poetas,
corajosos, alegras e brincalhões. Nesse clima de igualdade e
autenticidade tornei-me, durante 30 dias, irmão e companheiro de
pessoas que em condições normais de temperatura e pressão
provavelmente nunca teria tido a oportunidade de conhecer bem.
Na distante Carretera Austral conheci pessoas que, apesar de
toda diferença aparente, eram na realidade seres humanos muito
parecidos a mim. O que vivi, na verdade, nesses dias, foi uma
experiência de igualdade, um sentimento de pertencimento à
espécie humana e de aceitação de mim mesmo e de meus
semelhantes, apesar de toda diferença aparente. Foi nesse
espírito que sumiram aos meus olhos atribuições de status e
hierarquia que no Brasil seriam consideradas importantes para
“conhecer verdadeiramente” meus compatriotas. Lá na Carretera
não importavam suas idades, condições econômicas, profissão ou
empresa em que trabalhavam. Importava sim, suas características
humanas: seu bom humor, sua forma de perceber os acontecimentos,
sua disposição para o trabalho e para o amor. Importava a
contribuição que traziam para o grupo, e cada um contribuía ao
seu jeito. Estava aberta a porta para conhecermos formas
diferentes de ver o mundo e diferentes histórias de vida, e foi
isso o que fiz, e que mais me gratificou nesse viagem: conheci o
Valdo, o Nilson, o Fernando, o Ricardo e o Almiro e isso me
levou a me conhecer melhor também. Os meus cinco companheiros de
viagem, vivendo etapas diferentes de suas vidas, me fizeram
pensar na minha, nas minhas escolhas, nas minhas opções. O
cenário era maravilhoso, mas de que valeria o cenário se não
fosse esses companheiros? Afinal, uma viagem não é apenas um
deslocamento no tempo e no espaço, ela é, sobretudo, uma
experiência pessoal, uma oportunidade de auto-conhecimento. Assim,
minhas principais descobertas da viagem foram: O Valdo:
pessoa inquieta, idealista, me fez voltar a 12 anos atrás quando
pensava em ser sacerdote. Queria ser nosso pai e julgava-se
responsável por nossa sorte por ter tido a iniciativa de
organizar a expedição. Acho que tornou-se reconhecido no grupo
como um pouco paternalista. É um eterno jovem em busca de
aventuras e aborrecido com o mundo muitas vezes sem graça
inventado pelos adultos. Brincalhão e bem humorado, mas também
perfeccionista e exigente. Foi fundamental para que o grupo se
constituísse no começo servindo de ponte entre as pessoas. Um
grande atleta e nosso grande líder. Almiro: um
jovem que me marcou muito. Uma pessoa forte, de garra, de luta,
que desde cedo aprendeu a dar o “urra!” mas que nunca perdeu a
sensibilidade, o bom humor, a capacidade de fazer poesia e se
encantar com a vida. Amante dos animais, das plantas e da
natureza transmitiu-nos este carinho contando sua história de
vida, à prestações, pois são muitos os feitos. Com seu bom humor
quase irresistível, foi fundamental para equilibrar o clima do
grupo nos momentos mais duros. Tratava a todos com um
distanciamento respeitador, de quem reconhece que cada um é um
indivíduo único, diferente. Gostava de pedalar sozinho, estar
sozinho, e no final estava próximo de todos. Uma pessoa
trabalhadora, solícita e generosa. Nilson: dono
de uma inteligência prática de invejar a todos. Era ele que
resolvia os problemas no acampamento, ele que achava solução
fácil quando todos ficavam parados. Era também espontâneo e bem
humorado, rápido e diligente. Falava pouco e agia muito. Não
reclamava de nada, nem quando algo o incomodava. Nos
acampamentos, era responsável, junto com o Almiro, pela
fogueira, ou seja, por propiciar o calor e o ambiente
aconchegante que nos envolveria antes de abraçarmos a noite, o
que é bastante simbólico da personalidade deles. Fernando:
seria uma injustiça lembrar do Fernando só pelos jantares que
ele nos brindava. Ele era sobretudo uma pessoa calma e
observadora. Alegre e culta. Dava-nos aulas sobre o mar e sobre
o céu, sobre a comida e as plantas. Era um curioso que nos
incitava a reparar melhor no nosso entorno. Ricardo:
pessoa delicada, sensível, atenciosa e também muito bom como
companheiro da viagem, fera em montar acampamentos. e para
resolver problemas práticos. Tinha experiência de acampamento e
nos ensinou muito sobre essa arte. Por falar em arte, é um
fotógrafo muito talentoso e também aprendiz de cozinheiro e de
violão. Mesmo quando ficava um pouco para trás nas pedaladas,
não reclamava e era bastante solícito para ajudar qualquer um
que pedisse sua ajuda.
Além desses cinco companheiros outras tantas pessoas também
passaram por mim, deixando suas marcas, lembranças de sorrisos e
gestos de carinho. É o que trago de mais precioso da viagem:
Encontros. Terminada a Carretera Austral voltei um longo caminho
até Belo Horizonte: uma semana. Nesses dias refleti sobre
profissão e rumos a tomar. Era um esforço de por os pés no chão.
Chegando aqui abraço minha rotina de trabalho e estudos um pouco
mudado. Tenho consciência de que preciso ter meus pés no chão,
mas por outro lado sei que voar é fundamental. Penso no refrão
de Djavan: “vou andar, vou voar, pra ver o mundo/ nem que eu
bebesse o mar/ encheria o que eu tenho de fundo” e planejo uma
próxima viagem. Muito
obrigado Nilson, Fernando, Ricardo, Almiro e Valdo. Obrigado
também às Outras tantas pessoas que passaram por mim nessa
viagem e deixaram suas marcas. Nada é por
acaso, essa foi a frase que utilizei quando do meu primeiro bate
papo com o Valdo, por telefone ao me apresentar e perguntar-lhe
se poderia fazer parte desta viajem. Essa frase se concretizou
ao longo de toda a nossa expedição, nos primeiros dias que foram
aquele tumulto, as superações pessoais,ou seja, físicas e
emocionais, o riquíssimo convívio em grupo e as mensagens que
cada um passava a sua maneira, que ajudaram no meu crescimento
pessoal. Toda esta
contribuição ocorreu porque todos estavam engajados em um único
objetivo, que era participar de uma Expedição e não de uma
simples viajem a Patagônia chilena. Acredito que
com este espírito expedicionário, misturado com o espírito
peregrino edificamos um companherismo muito forte entre todos e
muito belo de se ver. É interessante notar que esse grupo só se
conheceu pessoalmente entre si, no momento do início da viajem,
isso representou uma incógnita de como seria a convivência por
um longo período com pessoas que mal se conheciam. Aos poucos
todos foram se conhecendo e encontrando seu espaço e uma maneira
de colaborar, com as atividades diárias, dividindo tarefas e
planejando as etapas, que tínhamos por vencer. Creio que o meu
maior desafio tenha sido superar minhas limitações físicas, pelo
pouco tempo que tive para treinar, uma vez que decidí participar
desta expedição praticamente faltando dois meses para o seu
início. Uma das coisas
que mais admirei no grupo foi o “Espirito de Equipe” que
prevaleceu todo o tempo, principalmente nos momentos de maiores
dificuldades. Cito como exemplo, quando pedalamos o dia todo,
com vento forte soprando contra e que fizemos uma fila indiana e
seguimos em velocidade reduzida e alternávamos quem ía na frente
para poupar energia aos que vinham atrás. Acabávamos sendo
sempre recompensados por belíssimas paisagens que tentamos
registrar em nossas máquinas fotográficas. Nossos bate
papos após o jantar, eram profundos, que se transformavam em
“vivências”, foram de tamanha magnitude e importância, que me
fez rever alguns conceitos e valores sobre muitos assuntos que
foram abordados. Essa nova
experiência em Cicloturismo me fez recordar as experiências
valiosas que tive em longas caminhadas, que muito se assemelham
e complemetam, recomendo a quem tem vontade de realizar um
sonho, que não perca tempo, nunca é tarde para começar, uma das
molas propulsoras é o querer realizar, como lí em algum
lugar e peço desculpa por não lembrar e citar de quem é a frase:
“Quando se tem vontade e determinação o mundo conspira a favor
!!!” Quero agradecer
ao amigos que fiz nesta expedição, sem ser redundante nas
conclusões, pelo companherismo, amizade e sobretudo a
oportunidade de ter convivido com pessoas sensacionais, que para
mim foram muito especiais. Ricardo
Sem fugir do “formato de diário”, narrarei alguns fatos
ocorridos durante meu retorno. Após despedir-me do pessoal,
segui do Ventisqueiro Yelcho para Chaitén, percurso inferior a
60 Km e praticamente descendo para o litoral . A grande
diferença foi o fato de agora estar sozinho, excetuando alguns
poucos veículos que cruzaram, nunca antes havia sentido-me tão
só, porém a sensação foi esquisita e ao mesmo tempo bastante
boa, uma paz de espírito que jamais havia experimentado. Houve
momentos em que apesar de existir somente o caminho (Sul e
Norte), senti aquela dúvida: será que estou no caminho certo?.
Como estava levando como “troféu” as garrafas cheias, uma c/agua do
degelo e outra com água da Fonte Ferrosa, deixei minha caneca
acessível para à medida que sentisse sede colheria água diretamente
dos rios que abundavam a margem da carretera, sempre havia algum
obstáculo, uma cerca, barranco muito alto, água turva... mas não
passei sede. O Transbordo para Puerto Montt sairia somente no dia seguinte as
20:30 Hs, a cidade de Chaitén, apesar de ser a capital da Província
de Palena X Região, tem apenas 3.500 habitantes e poucos lugares
para visitar, sendo o mais interessante, uma exposição junto ao
Centro de Informações do Parque Pumalin onde havia uma amostra de
fotos mostrando a belezas e também as “atrocidades” que ocorreram
nos bosques chilenos, como os pinheiros propositalmente queimados
durante a exploração feita no passado por madeireiras americanas.
Enquanto esperava o tempo passar apreciando a vista no calçadão
beira mar, surgiu um senhor e começou a conversar comigo, bastante
simpático, contou-me de suas férias solitárias nessa “imensa
cidade”. Nos despedimos, mais tarde no embarque voltei a
encontrá-lo, ocasião em que me perguntou aonde Eu trabalhava em
Santiago, pensei, meu espanhol está tão bom assim, que passei por
chileno, quando percebi que ele estava usando um aparelho de surdez.
A viagem para Puerto Montt foi ótima, acompanhado de uma tal de
“Carmen Margaux” (Cabernet Sauvignon) que tornou a viagem mais
agradável. A chegada a P. Montt contemplando o nascer do sol sobre
as cordilheiras, tendo também como fundo o Vulcão Osorno, lamentei
não estar com uma máquina fotográfica com zoom. Desembarcando,
segui diretamente para o Colégio Salesiano onde peguei a embalagem
da bicicleta, partindo em seguida para fazer um Tour ao lado oposto
que conhecemos em nossa primeira estada, o dia estava maravilhoso,
quente inclusive. Visitei
marinas com centenas de veleiros e a Universidade Austral .
Apesar de não me considerar um “urbanoide”, a cidade estava ficando
pequena para aguardar até as 22:30 Hs, quando embarcaria para
Santiago, não resisti e fui conhecer o Shoping, espetacular, além de
ótimas lojas, sua praça de alimentação tem uma vista para o mar
deslumbrante. Em uma loja de material esportivo encontrei uma
barraca que teria sido ótima para viagem, apenas 850g, a minha
apenas poucos centímetros maior pesa 1,7 Kg, nem perguntei o preço,
afim de não me aborrecer. Finalmente fui a um supermercado a fim
de comprar algo para viagem de ônibus até Santiago, ou seja, vinho,
porém como não é permitido beber álcool nesse, comprei também
algumas garrafas de Ginger-Ale (garrafa pet escura), onde “mocosei”
o vinho. Chegando na Rodoviária consegui antecipar minha partida
para 19:30 Hs, chegando em Santiago as 07:00 da manhã. Seguindo a
recomendação do Rough Guide – Chile (Publifolha), diga-se de
passagem, muito útil durante toda viagem, comecei a procurar o Hotel
Paris (Paris nº 813), distante uns 3 Km da Rodoviária, onde
depositei minha bicicleta e alforges, seguindo somente com uma
pequena mochila. No caminho passei por uma rua bastante
interessante, pois pela extensão de duas quadras, havia dezenas de
lojas somente voltadas ao comércio de bicicletas e assessórios.
Como o mapa do guia não é muito detalhado, a temperatura já superava
os 32°C, resolvi pegar um táxi, existem poucos hotéis no centro de
Santiago, sabia que estava próximo, mas encontrei um ponto de táxi,
quando expliquei o destino, o taxista simplesmente indicou-me o
caminho, apenas uma quadra adiante encontrei o hotel, o chileno
realmente é muito honesto. Tal e qual descrito no Guia, o Hotel
foi totalmente reformado, uma construção muito antiga e bonita, por
apenas US$ 25,00, hospedei-me em um imenso e confortável quarto c/TV
de 21¨, banheiro, porém sem desayuno. Após descansar visitei
diversas Galerias Comerciais onde comprei apenas alguns Cds e
livros. Anoitecendo encontrei ao lado do hotel um simpático
restaurante com o Menu fichado no lado de fora, em que mesmo antes
de entrar já tinha escolhido o prato, restando somente consultar a
Carta de Vinhos, logo na entrada um casal de americanos saia
bastante aborrecido e reclamando, não entendi muito bem, sentei-me,
quando uma família de suecos também reclamou, faltando somente eu,
chegando o garçom fiz o pedido, imediatamente esse me explicou que
se tratando de uma segunda-feira, não dispunham de frutos do mar,
pois não funcionavam no fim de semana e trabalhavam somente com
produtos frescos. Já que lá estava, solicitei as opções, restando
apenas a “mais sem graça” coxa de frango, queimada, sem sal e cara
que provei, pagando a bagatela de US$ 25,00, o vinho estava bom,
detalhe ½ garrafa de Undarraga Merlot. A partida
Santiago/Joinville seria às 10:30, as 08:15 parti em direção a
Rodoviária, tinha bastante tempo, bastava seguir pela avenida
principal da cidade (Libertador Bernardo O’ Higgins) e chegaria lá,
porém quando me deparei com o Cerro Santa Lucia, comecei a
desconfiar que havia algo errado, perguntei para um gari sobre a
rodoviária, quando constatei que estava seguindo exatamente para o
lado oposto, meia volta, apurei o passo e finalmente as 09:45 estava
na Rodoviária, resultado tive que desembolsar uma diária extra pela
custódia da bagagem, ao menos não necessitei recambiar p/dolares o
saldo de pesos chilenos. Partimos as 11:30 Hs, ônibus lotado,
ainda mais velho que o que viemos do Brasil, saíram dois com o mesmo
destino, logo na subida da Cordilheira o primeiro “ferveu”, nos
seguimos em frente, após toda burocracia agora da aduana argentina,
começamos a descida para Mendoza, a temperatura dentro do ônibus foi
subindo, o ar-condicionado pifou, a sauna seguiu até Uruguaiana,
atingindo 40°C, terrível, poucos reclamaram, os chilenos são muito
educados mesmo, consultei um senhor ao lado (carioca) este me
apoiou, resolvi tomar as providências, ao pararmos na aduana
procurei o motorista e cobrei uma solução tão logo chegássemos ao
Brasil, prometeu resolver, pois caso nada acontecesse, adverti-lo
que a devolução do valor da passagem seria o mínimo que faríamos,
pois nossas vidas estavam em risco dado ao calor, não havia nem água
a bordo, também não era possível abrir as janelas, pois são fixas,
restando somente as duas clarabóias no teto, que de pouco serviam.
Depois de 2 horas estávamos saindo da aduana, quando um policial
brasileiro foi vistoriar o bagageiro, logo perguntou pelo dono da
bicicleta, lá fui eu, perguntou-me sobre a nota fiscal, não tinha,
argumentei que havia pedalado no Chile, muito rapidamente o
motorista, o mesmo que eu havia ameaçado minutos antes, remendou,
“você não viu na televisão? ele foi competir no Chile”, fiquei
calado. Ao ver a bicicleta toda suja, o policial acabou acreditando,
difícil seria explicar as duas garrafas com água de degelo e a tal
água ferrosa!. Seguimos para almoçar, eram 20:00 horas, a
temperatura tinha baixado para 37ºC, fomos deixados em um
restaurante na saída de Uruguaiana enquanto o ônibus seguiu para
garagem da Pluma a fim de solucionar o problema, ficamos surpresos
quando chegaram dois, sendo um novíssimo “Carro Leito”, finalmente
seguimos viagem a 18ºC e tivemos que usar cobertores para dormir.
Finalmente as 15:30 cheguei em Joinville, onde remontei a bicicleta
e pedalei para casa.
Em resumo, desnecessário repetir tudo que os demais companheiros
já relataram, essa oportunidade foi realmente única e se fosse
reclamar de algo, seria somente do único pneu que furou. Valeu!!,
Almiro, Gustavo, Nilson, Ricardo e Valdo. Fernando
“Pedalando pela Carretera Austral”. Foi uma viagem espetacular com muitas
paisagens magníficas, diferentes das nossas paisagens
brasileiras. Viajando de bicicleta temos a liberdade de fazer
uma viagem totalmente maleável, observando cada detalhe durante
o percurso. Por ser uma viagem internacional, de um
mês, o valor foi relativamente baixo. O grupo conseguiu um grande entrosamento,
apesar de não nos termos conhecido antes da viagem. Esta viagem pode se feita por qualquer
ciclo turista que tenha um pouco de disposição. Eu a recomendo. Nilson
VIVÊNCIAS NA
PATAGÔNIA CHILENA
Preparativos da viagem
(individual)
?
Despesas durante a viagem
Hospedagem, Camping e
Alimentação
308,00
Atrativos
22,00
Passagem
Curitiba/Santiago/Curitiba
535,00
Passagens ônibus
Santiago/Puerto Mont/Santiago
143,00
Travessia Hornopiren/Caleta
Gonzalo
45,00
Ônibus La Junta Cochrane
188,00
Puerto
Chacabuco / Puerto Montt
176,00
TOTAL EM REAL
1.417,00
TOTAL EM DÓLAR
525,00
TOTAL EM PESO CHILENO
283.500,00
O que levamos
para a viagem BICICLETA Duas Bicicletas com 21 marchas,
duas com 24
e duas com 27 marchas. Três bicicletas com alforjes traseiros e
dianteiros. Três só com os
alforjes traseiros. O
alforje dianteiro ajuda
a equilibrar o peso nas
subidas íngremes e nos ventos
fortes. Capas para os
alforjes. Uma bolsa de guidão. Farol, tipo lanterna que
servia também para o
acampamento. Luvas para evitar bolhas
nas mãos. Caramanholas. Quatro
levaram duas cada um.
Um levou uma Camel Bag e uma
caramanhola. Apenas um levou
só uma caramanhola. Como
havia muita água na estrada
não teve grandes problemas.
Uma só não é suficiente. Todos tinham Ciclocomputador. É o
instrumento de navegação do
ciclista. Muito útil nas
grandes distâncias. Alguns fizeram os ajustes do
perímetro da roda, de acordo
com o pneu, para ter uma
medida exata da quilometragem,
durante a viagem. Bomba. cada um levou a
sua. Ferramentas para montar e
desmontar a bicicleta, chaves ale,
alicate, chave de fenda, etc. Câmaras de ar. Três em
média. Pneus, um! alguns
levaram dois. Uma chave para cortar a corrente. Pastilhas de freio. Foram
trocados três pares durante
a viagem. Raios. Dois raios
quebrados. Chave de raios. Óleo para corrente. O ideal é
o lubrificante com teflon que
repele a poeira. Peças de reposição, cabos de aço de freio
e de marcha. Ninguém levou corrente extra.
Barraca tipo iglu. Havia
três modelos de barracas. A
mais cara custou R$ 180,00 e
a mais barata R$ 69,00.
Todas se comportaram bem,
embora entrasse muito vento
gelado pela abertura durante
a noite. Plástico para forrar a barraca
e um para cobri-la, em caso de
chuva forte. Saco de dormir que suporte 0
graus. Um dos nossos levou um
saco impróprio e passou
muito frio. Isolante térmico. Fogareiro. Todos a gás que
é prático, barato e de fácil
reposição dos botijões de
gás. Seis no total. Panela, garfo, faca, colher e
caneca de plástico. Canivete. Corda para varal
Grampos para segurar a
roupa no varal
2 camisas de manga curta
de ciclismo 2 bermudas de ciclismo 1 calça de ciclismo
comprida. Alguns levaram
pernitos. Não agradou porque
escorrega durante a
pedalada. Era preciso usar
pregador para mantê-lo na
posição. Demonstrou-se muito
incômodo. 1 camisa de manga comprida.
Alguns levaram manguitos.
Muito prático e quente e
confortável. 1 jaqueta de nylon (corta
vento). 1 blusa de lã 1 par de luvas térmicas ou de
lã 1 gorro de lã 1 calção de banho
(não usado). A bermuda de
ciclismo serviu para o
banho. Roupa exclusiva para dormir,
para evitar dormir com roupa
suada. Capa de chuva. Nem
todos tinham. Sacos plásticos para
ensacar as roupas.
Levamos uma boa quantidade
de comida. Mais de 30 kg no
total. Havia grande
variedade. Cada um levou o
que gostava e isto ajudou
bastante. Sobraram apenas
dois pacotes de miojo que
ficou em Santiago. A
rapadura fez sucesso. Pena
que só havia duas de 400 g
cada uma. A banana passa (10
kg) foi suficiente. Ninguém
sofreu com câimbra. Entre
outras coisas, levamos
arroz, macarrão, vários
tipos de sopão, barras de
cereais, cereais matinais
Grings, enlatados
como salmão, atum e outros.
O pão era comprado quase
todos os dias. Para o café
da manhã: café solúvel,
leito em pó, chá de vários
tipos, queijo, marmelada,
patê de vários sabores, doce
de leite (muito apreciado
mesmo durante a viagem),
biscoitos doces e salgados,
frutas passas e fruta fresca
sempre que a encontrávamos
para comprar.
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cabeça, diarréia, protetor
solar, manteiga de cacau... |