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PRIMEIRA ETAPA - VIAGEM ATÉ USHUAIA |
Relato da viagem
Preparativos
Esta expedição começou a ser preparada em
março de 2005, logo após a bem sucedida Expedição Carretera
Austral, realizada em dezembro e janeiro de 2005. O número
de participantes chegou a 9 mas desde o início o grupo já
estava dividido. Os mais jovens iriam fazer apenas uma parte
aproveitando do período de férias. Quatro que tinham menos
compromisso (aposentados) se preparavam para fazer o roteiro
completo de mais de 3.000 km de muita aventura. O projeto
era pedalar de Bariloche até Ushuaia.
Em setembro, o Valdo, mentor do projeto, viu-se obrigado a
desistir da expedição. Os mais jovens, 4 participantes,
decidiram alterar o roteiro e partiram, na véspera do Natal
para fazer a região dos lagos na Argentina e Chile,
iniciando em Bariloche.
Os três aposentados ficaram indecisos. O tempo passava e
ninguém tomava uma decisão. Houve mais uma desistência. Em
dezembro o Valdo conseguiu voltar e mais dois uniram-se ao
grupo. Houve mudança no roteiro. A viagem se iniciaria em
Ushuaia com destino a Bariloche. O mesmo roteiro no sentido
inverso.
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Os participantes
Deste grupo participaram, por ordem de
idade:
Ricardo 37 anos
Nino 42 anos
Olir 56 anos
Armando 60 anos
Valdo 61 anos
Dos cinco apenas dois, Ricardo e Valdo, tinham experiência
de cicloturismo na Carretera Austral. O Olir tinha
experiência de cicloturismo em Santa Catarina e Rio Grande
do Sul. O Nino e o Armando faziam a primeira experiência.
O Ricardo ia participar do grupo de Curitiba que ia fazer a
região dos lagos. Só que ele ia unir-se ao grupo no dia 7 de
janeiro e a viagem deste grupo começava no dia 24 de
dezembro. Na última hora, resolveu viajar conosco porque
queria mais aventura. Já tinha a experiência do Chile, mas
faltava-lhe um pouco mais de treino. Esta falta de preparo
físico se refletiu logo no primeiro dia de pedalada.
O Nino também resolveu na última hora e teve apenas duas
semanas para preparar a viagem. Faltava-lhe também preparo
físico.
O Armando que tinha sido o primeiro a candidatar-se em março
teve que enfrentar a mudança de residência e nos últimos
meses não teve tempo para se preparar. Para complicar ainda
mais a situação, só recebeu a bicicleta reclinada na véspera
de Natal. Segundo ele, o único treino foi pedalar do Rio até
Niterói, pouco mais de 30 km, e isto com os alforjes vazios.
Somente quando chegou em Rio Gallegos foi que teve
oportunidade de experimentar o peso dos alforjes numa
“reclinada”. Ficou meio assustado com a experiência. Mesmo
assim estava disposto a fazer a ciclo viagem.
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Primeiro encontro dos participantes
Desta vez também o nosso grupo se conheceu
pela Internet. O primeiro encontro de todo o grupo foi em
Buenos Aires. Nino, Olir e Valdo chegaram no dia 6 de
janeiro às 13:30h na rodoviária de Buenos Aires. Depois de
guardar a bagagem no guarda volumes e pagar apenas 28 pesos
por duas diárias, saímos à procura de um hotel para passar
duas noites. O Armando só chegaria às 5 da tarde e tínhamos
marcado o encontro com ele no guichê da Pluma. Ele vinha do
aeroporto e não sabíamos onde ele ia descer. O problema era
que o guichê da Pluma fica no segundo piso e seria difícil
para ele subir até lá carregando a bagagem. Dividimos o
grupo. O Valdo ficou no guichê, o Olir foi até o início da
rodoviária e o Nino ficou no centro, onde os táxis
desembarcam os passageiros. Foi o Nino quem viu de longe um
ciclista empurrando uma bicicleta nada convencional, meio
“esquisita”, uma espécie de “chopper”, que chamava a atenção
de todo mundo e que deixou o Olir e o Nino meio
“desconfiados de que `aquilo´ não iria agüentar uma viagem
como a que tínhamos programado”.
Imaginem só a alegria do Armando quando ouviu o nome dele.
Ele chegou muito preocupado pois tinha tido problemas com a
bicicleta que tinha sido montada de qualquer jeito no
aeroporto do Rio. Em Buenos Aires ele viu um funcionário
sentado na bicicleta e quando a recebeu, percebeu que os
cabos estavam soltos. Nada de especial, mas para quem não
tem prática, o susto foi grande. O Armando mostrava-se
preocupado e pouco seguro. Deixamos a bicicleta e a bagagem
dele no guarda volumes e fomos par o Hotel.
Agora era só esperar o Ricardo que chegaria no dia seguinte.
Compramos os bilhetes de ônibus para o dia 8, domingo, com
destino a Rio Gallegos. $ 1.220,00 pesos e mais $ 50,00 pelo
transporte das bicicletas. Como estávamos somente com a
bagagem de mão foi fácil caminhar por Buenos Aires em busca
de um lugar bom, barato e central. Visitamos vários hotéis e
finalmente nos hospedamos no Hotel Três Sargentos e pagamos
$ 280,00 pesos por duas noites para 5 pessoas. Antes de
encontrarmos o referido hotel tivemos uma surpresa ao
entrarmos no “Albergue Transitório” e recebermos a
informação de que só havia quartos para “parejas”, isto é
casal. Homem acompanhado de “chica”. Estávamos numa espécie
dos nossos “motéis” e a recepcionista deve ter ficado
surpresa com a visita de 3 homens.
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Visita a Buenos Aires
Buenos Aires continua linda. Aproveitamos
a nossa estadia de dois dias para conhecer a cidade e
comprar algum equipamento para a viagem. Compramos pneus,
câmaras de ar, e roupa de ciclismo. Os preços são melhores
do que no Brasil mesmo para os produtos “made in Brazil”.
Mas o que chamou a atenção dos brasileiros foi o preço dos
transportes públicos. A passagem de metrô custa $0,70,
equivalente a R$ 0,56 e o ônibus $ 0,80 = R$ 0,64. O táxi
também é muito barato. Uma corrida normal de 5 km não passa
de $ 6,00. Isto par não falar na passagem aérea. De Buenos
Aires a Ushuaia, mas de 3.200 km custa apenas $ 304,00, ou
seja, R$ 243,00. É mais barato viajar de avião do que de
ônibus. Só que é preciso comprar o bilhete na Argentina,
pois no Brasil custa três vezes mais.
No sábado, dia 6, fomos até a rodoviária para recepcionar o
Ricardo. Guardamos a bagagem dele e fomos ao restaurante
“Siga la Vaca” para comemorar o encontro dos cinco
aventureiros. Finalmente o grupo estava completo. No final
da tarde compramos bolacha e refrigerante no supermercado e
fizemos o lanche na “Calle Forida”, muito movimentada.
Sentamos na porta de um banco e apesar do “pouco a vontade”,
vimos que ninguém dava bola para o que estávamos fazendo. Ai
nós também ficamos “a vontade”.
Já era noite quando o grupo se dividiu. O Armando, o Ricardo
e eu comemos uma pizza e voltamos para o Hotel. O Olir e o
Nino permaneceram na “Calle Florida” até meia-noite, tomando
cerveja e sorvete, vendo os artistas de rua: boa banda de
blues, “bandeolonistas”, cantores líricos, de tangos,
humoristas, mágicos, pintores e outros. Os bares e cafés,
alguns com cadeiras na calçada, restaurantes, todos lotados.
Os casais que passeavam nas ruas eram acompanhados de filhos
pequenos, apesar do horário, o que transmitia a sensação de
segurança.
Domingo, dia 7, amanheceu chovendo e a temperatura estava
agradável. Quando falávamos sobre bagagem, o Ricardo quase
acreditou e ficou impressionado quando o Olir disse que o
Nino havia trazido um enorme cobertor que estava sobre a
mesa do quarto. Rimos um pouco antes de dizer que o cobertor
era do hotel. Quando o Armando perguntou “o que era o tal de
manguito”, o Olir disse que “era uma manga cheia de
lantejoulas que se usava durante a viagem”. Quando ia dar
mais explicações o Nino não se agüentou e caiu no riso.
Tomamos café na “panadería” em frente ao hotel.
Aproveitamos para participar da Eucaristia na Igreja San
Martin e a seguir fomos até o Carrefour para comprar alguma
coisa. Esquecemos de um detalhe importante: nunca se deve ir
ao supermercado com fome. Compramos tanta coisa, mais de 10
quilos, que no final da viagem tivemos que repartir a sobra.
Almoçamos no restaurante do supermercado e dali já seguimos
para a rodoviária. O Olir e o Nino foram até o Hotel fechar
a conta e levar a nossa bagagem para a rodoviária onde nós
os esperávamos com as enormes sacolas de comida.
O Terminal rodoviário de Retiro, em Buenos Aires, é enorme e
muito bonito. São 75 plataformas de embarque numa construção
linear de mais de 500 metros de comprimento. Havia tanta
gente que era quase impossível caminhar no corredor central.
Ônibus modernos predominavam com destino a quase todos os
paises do Cone Sul, desde a Bolívia, Peru, Chile, Brasil,
Uruguai, Paraguai... No embarque para Rio Gallegos não
deixaram embarcar as bikes. Depois de muita apreensão
concordaram em despachar no ônibus seguinte e pagarmos $ 50.
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Início da viagem Buenos Aires Ushuaia
Às 21:30h deixávamos Buenos Aires rumo à
Patagônia, num ônibus semi cama da empresa Don Otto. Depois
de parar em outro terminal, o ônibus ficou completo e
foi-nos servido um delicioso jantar a bordo. Era o início da
nossa grande aventura.
Ao amanhecer, do alto do ônibus, só se via a imensa
planície. Dava para imaginar que estávamos num navio em alto
mar. Olhando ao redor, nos 360 graus, nenhum sinal de
vegetação, colina ou qualquer coisa que quebrasse a linha do
horizonte.
Houve uma parada de 10 minutos e a seguir o café a bordo.
Baseados no jantar, esperávamos um verdadeiro “desayuno”,
mas para nossa surpresa, recebemos apenas dois pacotinho de
bolacha, duas balas e um saquinho de leite em pó. Ficamos
esperando pelo café mas nada aconteceu. O Olir desceu ao
andar inferior e descobriu uma cafeteira. Alguns passageiros
desceram para buscar café.
Não conseguimos viajar lado a lado. A expectativa era saber
com quem cada um iria viajar. Quem teve mais sorte foi o
Ricardo que sentou-se ao lado de uma linda “chica”. Eu
sentei-me ao lado de um boliviano que ia tentar a vida como
servente de pedreiro em Rio Gallegos. Contou-me da
dificuldade de ganhar dinheiro na Bolívia. Eram 4 jovens que
iam em busca da sorte. O companheiro de viagem do Olir era
“um crioulo”, i.e., de origem local, era um “ovejero” de
Puerto S. Julian, que trabalhava numa estância de 45000
hectares. Com sua boina esquisita, vestido de bombacha,
cinturão e botas, voltava de 3 Rios onde fora visitar a
família que não queria morar na “estância”, devido ao frio.
Falou sobre os “longos dias do verão” que, apesar da
luminosidade, as pessoas e animais, dormiam e acordavam no
horário habitual. Ninguém deixava de dormir por causa do sol
ter nascido mais cedo.
Viajamos o dia inteiro em meio a uma planície repetitiva
onde se podia ver a curvatura da terra em qualquer direção
que se olhasse. Aos poucos começaram a aparecer os guanacos
bem longe. O Olir tentava fotografá-los, mas eles se
confundiam com a paisagem. Não demorou muito para que uns
dez deles resolvessem atravessar a rua e pousar para a foto.
Depois de algum tempo eram tantos guanacos que já ninguém se
importava com eles. As retas da estrada eram tantas e tão
compridas que a gente se admirava quando aparecia uma curva
na estrada. Depois de Serra Grande apareceram algumas
elevações. Subimos uma serra bastante alta e iniciamos uma
longa e sinuosa descida. Pena que estávamos no ônibus, pois
seria muito prezeiroso descer de bicicleta.
A comida no ônibus acabou. Não houve jantar nem café da
manhã. Paramos em Trelew para o lanche. O vendedor ambulante
oferecia sanduíche por $ 1,00 cada. Subimos ao restaurante
do primeiro piso e comemos uma hamburguesa e um refrigerante
cada um. Na hora de pagar, a surpresa. Cada hamburguesa
custava $ 8,00 e o refrigerante $ 3,00. Pagamos $ 55,00 por
um lanche que em baixo teria custado $ 15,00.
Em Comodoro Rivadavia, enquanto aguardávamos o ônibus que
completaria a viagem até Rio Gallegos, compramos comida num
supermercado. O Nino saiu sozinho à procura de uma farmácia
e só retornou quase uma horas depois. Neste intervalo,
preocupados com a demora, eu e o Olir saímos à procura dele
e não o encontramos. Daí acertamos que ninguém mais sairia
sozinho.
Durante a viagem o que chamou a atenção, nos vilarejos ou
estâncias, eram a casas com suas paredes e telhados
coloridos. Em muitos lugares, condomínios com casas bonitas,
hotéis com seus campos de golfe, bonitas cabanas, todas
provavelmente para a classe mais alta. No Chubut, paisagens
que lembravam as imagens dos velhos filmes americanos de
farwest, passados nas planícies secas, rústicas e selvagens
do velho oeste.
Às onze horas da manhã chegamos em Rio Gallegos e fomos logo
comprar a passagem para Ushuaia. Para nossa surpresa só
havia vaga para daí a dois dias às 9 horas da manhã. Começou
então uma novela que só terminou às três horas da tarde.
Tentamos contratar uma Van para seguir no mesmo dia. Pediram
que ligássemos às 14:30 para saber o preço. A guia de
turismo sugeriu uma empresa autorizada. Só conseguimos
contatar com o proprietário às 14 horas para saber o preço.
A alternativa seria alugar um carro e devolve-lo em Ushuaia.
Custava $ 900,00 mais a gasolina e as taxas de aduana e
Ferry Boat. O custo seria mais de $ 1.100,00. Desistimos.
Chegou o dono da Van, um velhote de 69 anos de idade, nada
amigável. Pediu-nos $ 1.200,00 para nos levar até Rio
Grande, contra $ 450, do ônibus. Depois de muitas tentativas
frustradas, desistimos da Van e compramos as passagens para
o dia 12 às 9 horas da manhã.
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Rio Gallegos
Começava a chover, ventava e fazia frio
quando, ainda na rodoviária, começamos a montar as
bicicletas e a bagagem para irmos até o camping. Sorte que a
chuva durou apenas uns 20 minutos mas o vento continuou.
Na rodoviária um número muito grande de mochileiros,
principalmente jovens – rapazes e moças, com suas mochilas
enormes, causando espanto pelo volume que carregavam.
Ficavam praticamente submersos, mochilas com 30 a 50 cm
acima da cabeça, curvados sob o peso.
Montamos as bicicletas e pedalamos 600 metros até um lindo
camping ATSA onde pagamos $ 5,00 por pessoa com água quente
e fogão. Eu tive que fazer duas viagens com a minha
carretinha para transportar toda a bagagem até o camping. No
camping, turistas se locomovendo de variadas maneiras:
ciclistas, motoqueiros, carros, mochileiros, sozinhos, em
grupos, com a família e das mais diversas procedências.
À noite nossa primeira janta acampados. Às 22 horas, por
causa da claridade, resolvemos dar uma volta pela cidade. A
surpresa foi ver um cidadão carpindo, àquela hora, o terreno
da casa. Por volta da meia-noite, quando estávamos uns 2 km
do acampamento, fomos surpreendidos por uma chuva fria.
Chegamos às barracas todos molhados.
Uma noite bem dormida nos deixa com boa disposição. A
temperatura dentro da barraca variou de 9 graus ao deitar a
3 graus de madrugada, mas quando levantamos, às 9 horas, o
termômetro já marcava 14 graus. Inaugurei o colchão auto
inflável e mais dois sacos de dormir, um de -4 graus e outro
de +5 graus por dentro do primeiro. Um travesseiro inflável
completou o conforto. Foi a primeira vez que dormi numa
barraca como se estivesse numa cama.
Café e almoço preparado pelo mestre Ricardo, exímio
cozinheiro com experiência de cozinha internacional na
Carretera Austral no Chile e agora na Argentina. Na parte da
tarde fizemos uma pedalada pela cidade e levamos a bicicleta
do Armando numa oficina para consertar o cabo de câmbio
traseiro que estava solto. Por onde o Armando passava,
pedalando na sua reclinada, chamava logo a atenção. O
pessoal parava na rua para admirar a nova engenhoca.
Enquanto esperávamos pelo conserto da bicicleta, alguns
usaram a Internet. O Olir, Ricardo e eu fomos até uma casa
de montanhismo SONECA onde fiz amizade com o dono da loja, o
Sr. José. Ele simpatizou comigo pela aventura que íamos
fazer e me ofereceu um ótimo desconto numa barraca que
custava $ 542,00. Cobrou apenas $ 300,00. O Ricardo foi o
felizardo, pois a barraca era para ele. Comprei uma blusa,
segunda pele de $ 88,00 por $ 69,00. O Sr. José Fernandez,
56 anos, gosta de aventura e nos deu algumas dicas valiosas
de como pedalar na região da Patagônia. Num dado momento ele
olhou para mim e disse que eu era um homem bom. Senti-me
lisonjeado, mas não consegui compreender porque ele
simpatizou tanto comigo.
Às 20 horas chegaram três motoqueiros de Uruguaiana. Dois
com 64 anos e um mais jovem com 42 anos. A nossa intenção
era dormir cedo para acordar às 5:30h, mas os gaúchos
conversaram alto até de madrugada. Como se isso não
bastassem, os dois velhotes que dormiam numa barraca a meu
lado, roncaram a noite inteira. O Armando disse que não
conseguiu dormir. Talvez seja por este motivo que o Nino
levantou às 5 horas. Eram 7:45h quando partimos para a
rodoviária com as bicicletas super carregadas. Uma bela
surpresa nos aguardava. Ao fazer o chek-in soubemos que o
ônibus não transportava as bicicletas. Já passava das 8
horas. Tivemos que deixar a bagagem e levar as bicicletas
até uma transportadora para despachá-las para Ushuaia.
Depois de tanta correria, finalmente resolvemos o problema e
chegamos à rodoviária às 8:40h.
O ônibus, que usava uma grade de proteção contra pedras no
para brisas, estava completamente lotado de turistas,
mochileiros e aventureiros das mais diversas origens:
alemães, canadenses, argentinos, chineses – um deles
professor de história -, brasileiros -paulistas, mineiros,
amazonenses e outros não identificados.
A paisagem era quase a mesma: imensas planícies cobertas de
vegetação rasteira, grandes rebanhos de ovelhas e um pouco
de gado e cavalos. Vimos pássaros que não identifiquei,
guanacos de diversas cores – brancos, pretos, amarelados e
alguns em duas cores. Estâncias e casas com suas cores
contrastantes: brancas, verdes, amarelas, azuis.
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Estreito de Magalhães
O evento do dia foi a passagem pelo
Estreito de Magalhães. Quem não lembra das aulas de história
e geografia, lá no primário? Os Conquistadores, As
Descobertas, as Grandes Navegações e Os Exploradores? O
Estreito de Magalhães era, em nossa mente, um canal cercado
de montanhas com pontas pontiagudas, cheio de mistérios e
desafios. Vendo-o agora cercado por imensa planície, com
suas águas azuis e frias, transparentes, com suas margens
cobertas de pequenas pedras redondas ou achatadas – iguais
aos seixos dos nossos rios, voltamos a reexaminar nossos
conhecimentos.
Quando a balsa encostou para desembarque os que vinham do
outro lado vimos uma ciclista, aparentando uns 45 anos, com
sua bicicleta na carroceria de uma camioneta, indo em
direção ao norte. Acredito que não deve ter tido forças para
enfrentar um trajeto longo de vento frio e forte que vinha
em sentido contrário.
Ao atravessar o Estrito embarcado numa balsa, 3 pingüins nos
davam as boas vindas. Pareciam bem mais ágeis do que aqueles
que aparecem em nossas praias em Florianópolis. Uma
paulista(?) começou a gritar: “olha as marrequinhas!!”
Vimos no trajeto muitos poços de petróleo, principalmente no
lado argentino.
Passamos por quatro aduanas, saída da Argentina e entrada no
Chile, saída do Chile e entrada de novo na Argentina.
Em Rio Grande nova surpresa: tivemos que trocar de ônibus e
o que nos levaria para Ushuaia parecia ter saído dos filmes
da década de 60. Talvez para dar mais emoção a aventura,
afinal estávamos indo ao “fin del mundo”. Um ônibus
daqueles, velho, atravessando os Andes, estrada beirando
precipícios e um motorista que insistia em dirigir com uma
mão no volante e outra num microfone de rádio em conversa
com motorista de outro ônibus...
Quando estávamos próximos a Cordilheira dos Andes vimos os
primeiros sinais de neve nas montanhas e os dois lagos
famosos: Fagnano e Escondido, cercados pelas montanhas e
florestas. Da Cordilheira em direção a Ushuaia, uma longa
descida – Caracoles, em zig-zag e, no final, as primeiras
imagens da cidade. Chegamos a Ushuaia às 9:50h da noite.
Depois de várias tentativas, acampamos no Camping Rio Pipo
por $ 10,00 por pessoa. Um lugar muito bonito com refeitório
e cozinha comunitária. Como a noite só chegou às 23:30
tivemos tempo de montar as barracas sem dificuldades.
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Ushuaia - El fin del Mundo
Por volta da meia-noite jantamos e a 1
hora fomos dormir já pensando em acordar cedo no dia
seguinte para visitar o Glaciar Martial. Voltamos a
encontrar os motoqueiros de Uruguaiana. Um deles recebeu o
apelido do amigo do Asterix – “Obelix”, por causa da
aparência.
Enquanto esperávamos pelas bicicletas que só iriam chegar no
dia seguinte, fomos subir até o Glaciar Marcial. A entrada
da trilha ficava a apenas 3 km do Camping. O Armando estava
sem máquina fotográfica e decidimos ir primeiro até o
centro. Ao invés de pegarmos o ônibus, resolvemos caminhar.
Foram 5 km até o centro da cidade. O Armando já chegou com
dores no joelho. Encontramos a máquina. Preço razoável. Na
hora de pagar houve problemas com o cartão de crédito do
Armando. Desistiu de comprar a máquina. Iniciamos a subida
desde o centro. 7 km mais os 5 km já andados. Durante a
subida, dividimos o grupo. O Ricardo e o Armando subiram de
teleférico e os demais subiram a pé. Uma caminhada muito
bonita pela trilha. A parte mais difícil estava ainda por
vir. Os últimos 1.500 metros de subida até o gelo do Glacial
era bastante difícil. Todos chegamos até lá, mas o Armando
detonou o joelho. Ele e o Ricardo voltaram de táxi para o
camping. Nós conseguimos uma carona numa parte do techo de
retorno e fomos, de novo, ao centro da cidade para
descarregar e gravar as fotos num Cd.
A manhã do dia 14 foi ocupada em retirar as bicicletas da
transportadora, consertar a alavanca de freio da bicicleta
do Olir, que chegou quebrada, e volta ao camping. Após o
almoço o Olir e o Nino foram até o Parque Nacional Bahia de
Lapataia para documentar o fim da RN3 e a Estação del Trem
del Fim del Mundo . Os demais foram de ônibus ao centro para
fazer compras.
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