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TERCEIRA ETAPA - De Torres del Paine a El Calafate |
dia 21 Torres del Paine - Cerro Castillo = Fronteira Chile/Argentina
- 65 km de ripio
O relógio despertou às 4:45h. Ainda era escuro. Queríamos sair às
6:00 horas mas só conseguimos deixar o camping às 7:20h! a viagem
até Cerro Castillo foi tranqüila. Um dia magnífico com sol, céu
aberto e sem vento. De manhã cedo o termômetro marcava 0 graus. Ao
meio dia, pedalando no sol, chegamos a 34 graus. O consumo de água
foi mais do que o previsto. Na última parada, quando faltavam apenas
10 km para chegar a Cerro Castillo, fiz sinal para um turista
acenando com a garrafa. Ele não percebeu o sinal. Seguiu adiante,
mas logo parou e voltou para perguntar se precisávamos de água. Que
alívio! Era um turista alemão num carro chileno. Apanhou um garrafão
de 5 litros e encheu as nossas caramanholas com água mineral.
Como prevenção, para a próxima etapa compramos uma garrafa de
refrigerante de 3 litros e mais duas de litro e meio. Como já
tínhamos uma de dois litros o problema da água estava resolvido par
o dia seguinte.
Na loja de souvenir fomos informados de que podíamos acampar na
praça da cidade. Lá havia um bom espaço e banheiros, sem chuveiros,
mas com pia para nos lavar. Conosco acampou James, um ciclista
chileno, que nos contou sobre suas viagens. O que achamos também
interessante, foi os alforjes alemães que usava: práticos e muito
bons para o cicloturismo. Deu inveja. Mostrou-nos outras ferramentas
e um raio flexível para uso emergencial que dispensava o desmonte da
roda para fixá-lo.
Junto ao camping as árvores retorcidas nos davam a dimensão do vento
forte que predominava na região. Felizmente, naquele sábado, o dia
estava agradável, apesar do frio da noite.
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dia 22 Cerro Castillo - El Cerrito = 124 km com 85 de ripio
Eram 8:15h quando chegamos na aduana chilena que ficava a 300
metros da praça onde tínhamos acampado. Enquanto preenchíamos os
documentos de entrada apareceu um forte vento acompanhado de um
início de chuvas. As nuvens negras no horizonte nos deixavam
preocupados. Foi preciso usar uma blusa por causa do frio – uns 5
graus - e a capa de chuva.
Aproveitamos para tirar uma foto na fronteira chilena e seguimos
adiante. Mais 8 km e chegamos na aduana argentina. O vento soprava
forte e lateral na estrada de ripio. Ao completarmos 15 km chegamos
na Ruta 7 e, para nossa surpresa, era asfaltada e com vento a favor.
A viagem ficou tão gostosa que o Nino se animou e disse que estaria
disposto a pedalar até El Calafate. As retas e ventos nos fizeram
percorrer uns 40 km em pouco tempo. Sem tocar no pedal a bicicleta
andava a uns 15 km/h. Pedalando chegamos a atingir acima de 50 km/h,
velocidade em que o vento se anulava.
No caminho encontramos 2 grupos de ciclistas que nos disseram ser
italianos. Como vinham no sentido contrário faziam muita força
contra o vento. Também nos disseram que haviam se enroscados e um
deles foi hospitalizado com a clavícula quebrada. Andavam somente
com mochilas hidratantes e um micro ônibus dando suporte. Fácil né?
Ao meio dia já tínhamos chegado no nosso destino. No trevo da Ruta 7
com a 40 paramos para lanchar e encontramos 2 ciclistas franceses.
Um deles com vestimentas da “legião estrangeira”: turbante, bermudas
e botinas. A roupa castigada pela poeira. Estavam se dirigindo para
Ushuaia e não pretendiam conhecer Torres del Paine, apesar de
passarem bem próximo. Disseram que o objetivo era exclusivamente
chegar em Ushuaia.
Ali iniciava a ruta 40 com 70 km de ripio até chegar na Ruta 5 que
também era asfaltada. Como todos estavam animados com o vento a
favor, resolvemos seguir viagem até o Distrito Policial a 50 km de
distância. Chegamos no Posto Policial às 17:30h. Não havia ninguém.
O único lugar para acampar era dentro do quintal. Comemos,
descansamos e depois de uma hora de espera resolvemos enfrentar os
últimos 20 km que nos separava da Ruta 5. Assim poderíamos chegar no
dia seguinte em El Calafate. Já passava das oito horas quando
chegamos ao Posto El Cerrito. Fomos muito bem recebidos pelo Sr.
Ivan que trabalha no posto. Junto com ele estavam de passagem o
irmão, a mãe e toda a família que mais tarde viajou para El Calfate.
Como o vento esta forte, o Sr. Ivan nos sugeriu acampar atrás de
monte de canos e tambem nos ofereceu uma casa abandonada de uns 2,50
x 4m na parte baixa do terreno a uns 100 metros da residência. Para
evitar armar as barracas resolvemos dormir ali mesmo. Limpamos a
casa, fechamos a janela com tábuas e a porta com um plástico.
Dormimos no chão com muito conforto e protegidos do vento e do frio.
Fui até a casa do Sr. Ivan para buscar água quente. Ele convidou-me
a entrar. A mesa estava preparada para o jantar. Um cordeiro enorme
e bastante frango. Desviei o olhar mas não pude suprimir o olfato.
Era difícil reprimir a tentação depois de um dia de pedalada com 124
km sendo 85 km de ripio. Fui até o fogão e esperei que a água fosse
aquecida. Com as garrafas cheias de água quente dirigi-me à porta de
saída. Foi então que o irmão do Sr. Ivan - que antes tinha se
admirado da minha coragem ao saber que eu já ia completar 62 anos de
idade - me convidou para comer um pedaço de cordeiro. Agradeci e
disse que tinha que levar a água aos companheiros.
- Os seus companheiros podem esperar, disse-me ele.
Diante da insistência aceitei o convite. Comecei a comer um
delicioso pedaço de cordeiro assado. Depois veio o pão, a maionese,
o suco e uma cadeira para me sentar. As crianças curiosas me
rodearam e fizeram um monte de perguntas. Foi o jantar mais
delicioso de toda viagem, pelo menos nunca me sairá da mente. Seja
pela comida deliciosa acompanha da fome, seja pela acolhida fraterna
do pessoal.
Os companheiros esperavam pela água quente que a esta altura já
estava morna. Ao chegar ao acampamento contei a novidade e disse que
não tive como recusar o convite.
A esta altura eles já tinham prepara a mesa para fazer o jantar mas
faltava o isqueiro que esta comigo. Acenderam os fogareiros e
começaram a preparar o miojo. Eu declinei da minha parte pois já
estava satisfeito. Passaram-se alguns minutos e ouvi uma voz de
menina em cima do barranco:
- Senhor! Senhor!
Fui atender e deparei-me com mais uma agradável surpresa. As
crianças traziam uma grande bacia cheia de cordeiro, frango e pão
para os meus colegas. Que maravilha. Fazia tempo que não comíamos um
pedaço de carne. Os três comeram tanta carne que até sobrou o miojo.
Terminado o lauto banquete forramos o chão com plásticos e
preparamos os sacos de dormir para mais uma noite bem dormida.
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dia 23 El Cerrito - El Calafate = 97 km de asfalto e vento contra
Oito horas da manhã, depois de nos abastecer com um pouco de água
do Sr. Ivan, que também a recebia pelo caminhão trazida há uns 40 km
de distância, nos despedirmos e
iniciávamos mais uma etapa que sabíamos ia ser difícil. Tínhamos que
vencer 98 km de asfalto. Em condições normais seria uma maravilha
mas como a estrada subia sempre e o forte vento contra não dava
tréguas, a viagem virou um tormento para todos. O vento constante
irrita a gente. O Olir saiu na frente puxando os demais numa
velocidade de 13 km/h. Eu ia atrás e percebi que nesta velocidade
com o vento forte alguns companheiros não iriam resistir na parte da
tarde. Pedi para baixar a velocidade para 9 km/h. No começo acharam
que era muito lento, mas depois de algumas horas perceberam que era
o máximo que conseguíamos fazer naquelas condições.
Depois de 60 quilômetros de subidas intermináveis, lutando contra o
vento, finalmente chegamos ao mirante com uma linda vista do Lago
Argentino. Uma pausa merecida. Fotos, comida e bebida. Ficamos
animados ao ver uma placa informando “Cuidado - longo declive de 8
km”. Como o Nino tinha se destacado na descida no dia anterior, com
vento a favor, pedimos para ele ir à frente. Iniciamos a descida,
mas tínhamos “freio a vento”. As bicicletas não andavam. Era preciso
pedalar forte para conseguir descer. O Nino ficou para trás. Eu
passei à frente com o meu carrinho que se comporta muito bem no
vento. O máximo que consegui atingir na descida foi 28 km/h. Em
alguns trechos, dependendo da direção da curva, era preciso mudar
para uma marcha leve, de subida, para que a bicicleta não parasse.
Tínhamos informação de que o vento parava às cinco horas da tarde
para recomeçar às dez horas do dia seguinte. Paramos um longo tempo
na esperança de que o vento contra acalmasse. Mas tal não aconteceu.
Continuamos a penosa marcha vencendo metro a metro numa velocidade
de 5 a 7 km/h. Os últimos 20 km foram exaustivos, especialmente para
o Nino - “estava tão exausto que mesmo empurrando a bike continuava
trocando as marchas”. Tivemos que rir.
Quando finalmente conseguimos entrar na cidade já passava das nove
horas da noite. Foram onze horas para fazer 98 quilômetros.
Pedalamos 9:30 h numa velocidade média de 10.3 km/h, no asfalto. A
média do dia anterior, com 85 km de ripio, tinha sido de 16.1 km/h.
Antes de ir para o Camping o Olir e o Ricardo entraram no
supermercado La Anônima para comprar comida. Tiveram que esperar que
o pão fosse assado. Eu e o Nino esperamos na calçada para cuidas das
bicicletas. Muita gente se aproximava para admirar a minha
carretinha. Alguns pediam para tirar foto junto comigo. Fiquei
famoso. Não é sempre que se vê um “velhinho” com mais de 60 anos
pedalando por aquelas regiões. Enquanto esperávamos pelos dois que
só saíram às dez da noite, eu fui até o Camping Los 2 Pinos e
reservei um lugar para as quatro barracas. É o único camping da
cidade que possui cozinha compartilhada. O lugar é ótimo e fica a
apenas três quadras do centro da cidade. Quando acabamos de jantar,
já passava de uma hora da madrugada.
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dia 24 a 26 - El Calafate (Glacial Perito Moreno) - Partida
O café da manhã foi às nove horas. Fomos até a rodoviária e
compramos a passagem para visitar Perito Moreno. O Nino mudou a data
de volta do dia 4 de fevereiro para o dia 26 de janeiro. Conseguiu
uma passagem de avião pela Aerolineas Argentina. O Olir comprou a
passagem de avião para o dia 4 de fevereiro. O Ricardo ia viajar no
dia 27 de ônibus para Rio Gallegos onde pegaria o avião para Buenos
Aires. Eu sobrei.
Ao meio dia comemos uma deliciosa parrillada livre com bufet ao
preço de $ 18,00 por pessoa, regado a vinho. Aproveitamos o dia para
acessar a Internet e gravas as fotos num CD para liberar as memórias
das máquinas. Na parte da tarde fizemos um passeio ciclístico pela
beira do lago. Como o vento era muito forte e irritava muito, o Nino
voltou do meio do caminho. Pedalamos apenas 8 km em uma hora.
A cidade de El Calafate estava repleta de turistas. É simpática e os
preços são razoáveis. Muitas lojas destinadas aos turistas –
souvenires e prática de esportes nas montanhas, neve, acampamento,
etc. Restaurantes pequenos e confortáveis, pousadas e hosterias
bonitas, ruas movimentadas de turistas com suas roupas pesadas e
coloridas de inverno. Muitos automóveis do tipo jipões e camionetas.
A principal atração da região são os glaciais, em especial o Glacial
Perito Moreno, distante 80 km do centro da cidade.
No dia 25 conhecemos o tão badalado Glacial Perito Moreno. Levamos
duas horas e meia par percorrer 80 km de ônibus. Dentro da área do
parque havia muitas máquinas trabalhando na estrada. Os últimos 30
km são de ripio e vai ser asfaltado.
Depois de uma visita rápida de meia hora pelos mirantes do Glacial
voltamos ao ônibus que nos levou até o porto onde fizemos um lindo
passeio de barco de uma hora. Chegamos a uns 100 metros da parede
norte do glacial. Um espetáculo imperdível. Pagamos $ 38,00 por uma
hora de passeio, mas valeu a pena. Dentro do barco conseguimos um
copo com gelo do glacial e na saída comemoramos o evento tomando
wiskhy com gelo de 1.000 anos. O Ricardo tinha levado uma
garrafinha, comprada no Chile. Terminado o passeio voltamos à parte
superior e tivemos três horas para contemplar, de vários ângulos, as
maravilhas do glacial.
A expedição estava praticamente chegando ao fim. Com a volta do Nino
e do Ricardo, eu e o Olir decidimos pedalar até El Chalten, uma
distância de 240 km de ripio. O Olir comprou a passagem de volta de
ônibus onde iria pegar o avião no dia 4 de fevereiro mas não se
sentia à vontade para pedalar somente os 2 naquela região tão
agreste com vestuário inadequado para tempo ruim, especialmente no
caso da chuva. Eu deveria seguir em frente com um roteiro ainda por
definir. Pretendia tomar o barco em El Chalten e seguir até Villa
O’Higgins onde termina a Carretera Austral. Iria fazer todo o resto
da viagem sozinho. Durante a viagem de volta de Perito Moreno para
el Calafate decidimos ir até El Chaltem no dia seguinte, de ônibus,
e retornar depois de 4 a 5 dias. Deixaríamos as bikes no camping.
Na agência de viagens não conseguimos a passagem para mim no dia
desejado – entre os dia 1 a 4 de fevereiro. Durante a consulta por
lugares no avião fomos informados de que só havia passagens para o
dia seguinte, 26 ou março. Debaixo do sufoco para decisão acabamos
optando por embarcar no dia 26, cancelando nossos planos para El
Chalten. Enfim, arranjamos motivos para um dia retornar ao plano de
viajar de Ushuaia até Bariloche. Eu estava tão perto de conseguir um
dos maiores eventos de minha vida. Foi difícil, mas a decisão foi
tomada. Era o fim da expedição. Ainda não foi desta vez que conheci
Fitz Roy e El Chalten. Será par a próxima. Enquanto há vida há
esperança.
Às 22:30h fomos ao restaurante para comemorar o final da expedição
com um delicioso jantar com muita carne de “cordeiro patagônico” e
um bom vinho argentino.
A noite de despedida do camping foi extraordinária. Durante toda a
noite soprou um vento muito forte. A barraca balançava de todos os
lados. Alguns dormiram pouco com medo de serem enrolados na barraca
pelo vento. Quando acordei a minha barraca estava totalmente solta.
Só não saiu do lugar porque estava com toda a bagagem dentro. A do
Olir foi protegida com a mesa e bancos do Camping. A do Nino teve a
parte superior arrancada.
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